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	<title>TROCANDO IDEIA</title>
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		<title>TROCANDO IDEIA COM EVANDRO OURIQUES</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Aug 2011 03:41:20 +0000</pubDate>
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		<title>TROCANDO IDEIA AO SOM DE VINÍCIUS CASTRO</title>
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		<pubDate>Sun, 19 Dec 2010 00:34:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>flaviamuniz</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Foram três anos de produção. Vinícius Castro preparou bem seu álbum de estreia. O cd está fresquinho e está vendendo feito água. São vários planos para 2011 e um imperdível show-palíndromo no dia 21/12. A música brasileira se renova sempre. Para conferir  todas as músicas é só clicar aqui.<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=flaviamuniz.wordpress.com&amp;blog=9800770&amp;post=301&amp;subd=flaviamuniz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><a href="http://flaviamuniz.files.wordpress.com/2010/12/vc-cd-alta-13-copy.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-293" title="VINÍCIUS CASTRO" src="http://flaviamuniz.files.wordpress.com/2010/12/vc-cd-alta-13-copy.jpg?w=315&#038;h=209" alt="" width="315" height="209" /></a>Foram três anos de produção. <a href="http://www.viniciuscastro.com.br/">Vinícius Castro</a> preparou bem seu álbum de estreia. O cd está fresquinho e está vendendo feito água. São vários planos para 2011 e um imperdível show-palíndromo no dia 21/12. A música brasileira se renova sempre. Para conferir  todas as músicas é só <a href="http://www.oinovosom.com.br/slangrj">clicar aqui</a>.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> Eu sou suspeita pra te entrevistar pois te conheço da Unirio e sei o quanto teu trabalho é bom e o que é estar numa escola de Música popular brasileira e não poder  ter o apoio da universidade para o processo de feitura de um cd, o que significa um encaminhamento para o mercado de trabalho. De que forma você vê isso e como foi a produção do &#8220;jogo de palavras&#8221;?<br />
<strong> </strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>VINÍCIUS CASTRO:</strong> A produção de ‘jogo de palavras’ foi absolutamente independente. A universidade foi importante nesse processo de feitura, mas de forma indireta: graças a ela, tive contato com diversos instrumentistas amigos que compraram a ideia do disco e resolveram emprestar seu talento ao projeto!</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> Que tipo de diálogo o artista é capaz de criar com a sociedade em que vive e com o seu tempo?<br />
<strong> </strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>VINÍCIUS CASTRO:</strong> Como já foi dito por muitos, eu acredito que o artista é uma espécie de cronista de seu tempo. Mas talvez isso vá além: quando bem feita, a obra de arte retrata o ser humano &#8211; e por isso, se torna atemporal.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> Em &#8220;dos pés a cabeça&#8221; o jogo de palavras é quase um jogo lúdico. Parece música de criança. Que mundo você queria ver no futuro quando as crianças de agora forem adultas?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>VINÍCIUS CASTRO:</strong> Parece não&#8230; é uma música infantil! =) Acho que a tendência do mundo é a melhora de forma concêntrica. Acho que as crianças de amanhã estarão no mesmo lugar (fechando nossos ciclos), mas um pouco acima.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> Eu ouvi um passeio de influências no seu álbum de estreia. Eu li numa entrevista que você treinou bastante antes, né? Eram vinte músicas &#8220;toscas&#8221; por dia aos treze anos! (queria ouvir isso!!!). Qual o sentido que te dá mais sentido pra compor?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>VINÍCIUS CASTRO:</strong> (Não queira ouvir, é um desastre!!) A visão, incrivelmente, parece estar até acima da audição. Sempre tenho uma imagem na cabeça na hora de compor. Se não há imagem, não há som e não há canção!</p>
<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://flaviamuniz.wordpress.com/2010/12/18/trocando-ideia-ao-som-de-vinicius-castro/"><img src="http://img.youtube.com/vi/8wusYY_8w18/2.jpg" alt="" /></a></span>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> Vinícius, o que é a coisa mais importante da vida pra você, além da palavra e da música?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>VINÍCIUS CASTRO:</strong> Consciência.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> &#8220;Sentença&#8221; é uma música que devia tocar em todas as aulas de português do Brasil. É um tango arretado! E tem muita gente tocando ela e até mesmo gravando, né? A Dani Calazans, por exemplo, certo? Qual é a sensação de ser gravado por outros novos compositores?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>VINÍCIUS CASTRO:</strong> Acho muito interessante ouvir versões de outros artistas para as minhas canções. A sentença, pra mim, sempre foi uma canção triste. Mas já ouvi versões raivosas, irônicas&#8230; Interessante como as palavras batem de forma diferente em cada um que as escuta.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> Eu gosto de perguntar uma coisa: o que é ser humano?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>VINÍCIUS CASTRO:</strong> Ser humano é saber errar.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> &#8220;Sangramento&#8221; é de uma beleza Chicobuarquinana. É uma das músicas mais bonitas do cd. Você está preparado para ser nomeado o novo &#8220;Chico Buarque&#8221;? Quantas vezes já ouviu isso? Qual sua música ou álbum preferida(o) do teu mestre?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>VINÍCIUS CASTRO:</strong> Fico sempre lisonjeado com essa comparação&#8230; afinal, sou fã de carteirinha! Mas ao mesmo tempo acho que isso demonstra uma carência da sociedade por letras mais trabalhadas – é como se o povo estivesse tão acostumado com a ausência de qualquer embasamento nas poesias das canções, que ao ver o esmero desprendido em minhas músicas, acabam cometendo esse exagero de comparação!</p>
<p style="text-align:justify;">Meu álbum preferido é “o grande circo místico”, e a música fica difícil, adoro todas desse álbum!</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> Música é reza? De que jeito vê a o ato de criar?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>VINÍCIUS CASTRO:</strong> Criar é trabalhar &#8211; o braçal que se torna fluido.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> Impossível deixar de falar de &#8220;Casa ao Revés&#8221;. O arranjo é teu? Fala aí de sociedade, machismo e me diz: em que medida o mundo é das mulheres?<br />
<strong> </strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>VINÍCIUS CASTRO:</strong> O arranjo é meu sim, aliás, todos os arranjos do disco são! Acho que essa música é extremamente feminista, e retrata de forma caricata o homem moderno. Esse homem que é dono de casa, que prepara o jantar pra mulher que foi trabalhar, mas, para afirmar sua masculinidade, impõe sua barba!</p>
<p style="text-align:justify;"><strong><br />
FLÁVIA:</strong> E quando é seu próximo show, onde as pessoas te ouvem, como comprar seu cd, planos pra 2011.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>VINÍCIUS CASTRO:</strong> Show dia 21/12 na casa de shows Lapinha (Av.Mem de Sá, 82), 21h!</p>
<p style="text-align:justify;">Para comprar o cd, basta acessar : <a href="http://www.viniciuscastro.com.br/">www.viniciuscastro.com.br</a>.  Lá você vê todas as lojas onde o cd está a venda e também pode encomendar via correios.</p>
<p style="text-align:justify;">Meus planos pra 2011: lançar 2 livros infantis que já estão no forno, botar na rua a produção de 2 cantoras, fazer muitos shows com meu cd pelo Brasil e também compor um novo musical, para o qual já fui convidado.</p>
<p style="text-align:justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align:justify;">&nbsp;</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/flaviamuniz.wordpress.com/301/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/flaviamuniz.wordpress.com/301/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/flaviamuniz.wordpress.com/301/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/flaviamuniz.wordpress.com/301/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/flaviamuniz.wordpress.com/301/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/flaviamuniz.wordpress.com/301/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/flaviamuniz.wordpress.com/301/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/flaviamuniz.wordpress.com/301/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/flaviamuniz.wordpress.com/301/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/flaviamuniz.wordpress.com/301/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/flaviamuniz.wordpress.com/301/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/flaviamuniz.wordpress.com/301/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/flaviamuniz.wordpress.com/301/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/flaviamuniz.wordpress.com/301/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=flaviamuniz.wordpress.com&amp;blog=9800770&amp;post=301&amp;subd=flaviamuniz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>TROCANDO IDEIA COM DELL DELAMBRE</title>
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		<pubDate>Tue, 23 Nov 2010 15:09:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>flaviamuniz</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ô, sô! Prosa adiada! Nos conhecemos no evento ecumênico que ocorreu na candelária em memória dos 17 anos da chacina da Candelária, em julho de 2010. Eu fui cantar o “Quero ver verdejar” no evento para as mães que perderam seus filhos. Foram alguns minutos de conversa naquele dia e descobrimos que somos vizinhos. Dellambre é professor de teologia e sua área de pesquisa é voltada para um campo que eu me interesso muito: sustentabilidade e aquecimento global. Ele tem uma fala calma, morou na Alemanha e criou o projeto “Gol para o planeta”. Em tempos de Copa do mundo e Olimpíadas, nada mais pertinente! E o que faz a teologia no meio de um projeto social? Através da reflexão profunda do ser humano é possível que as pessoas transformem suas vidas aqui e agora.  Aproveitem o sotaque mineiro dele que eu vou ali tomar um “cafezim”.<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=flaviamuniz.wordpress.com&amp;blog=9800770&amp;post=260&amp;subd=flaviamuniz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://flaviamuniz.files.wordpress.com/2010/11/dell4.jpg"><img class="aligncenter size-large wp-image-267" src="http://flaviamuniz.files.wordpress.com/2010/11/dell4.jpg?w=767&#038;h=1024" alt="" width="767" height="1024" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Ô, sô! Prosa adiada! Nos conhecemos no evento ecumênico que ocorreu na candelária, em memória dos 17 anos da chacina da Candelária, em julho de 2010. Eu fui cantar o “<a title="Quero ver verdejar" href="http://queroververdejar.blogspot.com/" target="_blank">Quero ver verdejar</a>” no evento para as mães que perderam seus filhos. Foram alguns minutos de conversa naquele dia e descobrimos que somos vizinhos. Dellambre é professor de teologia e sua área de pesquisa é voltada para um campo que eu me interesso muito: sustentabilidade e aquecimento global. Ele tem uma fala calma, morou na Alemanha e criou o projeto “<span style="color:#ffcc99;"><a title="Gol para o planeta" href="http://www.youtube.com/watch?v=SlOlDigbsMc" target="_blank">Gol para o planeta</a></span>”. Em tempos de Copa do mundo e Olimpíadas, nada mais pertinente! E o que faz a teologia no meio de um projeto social? Através da reflexão profunda do ser humano é possível que as pessoas transformem suas vidas aqui e agora.  Aproveitem o sotaque mineiro dele que eu vou ali tomar um “cafezim”.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA</strong>: Eu costumo perguntar as pessoas de que forma elas se reconhecem no nome que têm.  Sempre penso nas raízes que nos constituem. Dellambre é um nome diferente. Que pessoa é esta aí?</p>
<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://flaviamuniz.wordpress.com/2010/11/23/trocando-ideia-com-dell-delambre/"><img src="http://img.youtube.com/vi/UW-g8Hcu8kU/2.jpg" alt="" /></a></span>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA</strong>: Você é professor de teologia – que é o estudo de Deus (está certa esta definição? Qual é a melhor maneira de definir o que é teologia?).O que esse estudo trouxe de conhecimento/entendimento/transformação pra sua vida?</p>
<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://flaviamuniz.wordpress.com/2010/11/23/trocando-ideia-com-dell-delambre/"><img src="http://img.youtube.com/vi/R4EVlocPdDs/2.jpg" alt="" /></a></span>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> Ainda ligada a pergunta anterior: de que forma você vê a questão dos conflitos religiosos e onde foi exatamente que se formaram os alicerces dos fundamentalismos?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>DELLAMBRE:</strong> Todas as vezes que a gente fosse falar alguma coisa sobre o ser humano, a gente deveria primeiro parar, ouvir, pensar, refletir e depois falar. Cada vez que eu aprofundo o estudo da teologia, atravessando aí, o que a gente chama hoje de ciência da religião, a gente vai percebendo que diante da religião nós temos um ser humano diferenciado. Só quem convive, se aproxima ou se aproximou desse grupo, de forma talvez presente, no sentido de alguém que busca algum tipo de resposta ou de caminho para compreender a realidade, mas também de forma técnica e científica, passa a ter um olhar diferenciado para a vida. É como se a religião fizesse com que o ser humano retomasse dimensões profundas da sua existência, mas que de alguma forma o interliga, o conecta com dimensões profundas da história da humanidade, ou do <em>ethos</em> da humanidade, ou seja, nós estamos tocando nas questões que fazem parte da origem do ser humano. Então você vai ter olhares de outras dimensões da sociedade. Na minha leitura não é pior e nem melhor. São olhares diferenciados. Vai ficando evidente para a gente que pesquisa, que a história das religiões, faz com que, aos poucos, haja um olhar diferenciado para uma dimensão transcendental que move as pessoas. Isso se mistura com dimensões da nossa humanidade e da nossa dimensão ontológica, que no balanço cósmico do universo &#8211; que se movimenta pelo movimento de expansão e de contração, de ajustes e desajustes – essa dimensão de desajuste do ser humano parece que em alguns momentos fica muito evidente: é uma dimensão mais egoísta, mais destrutiva, mais escravizadora do outro. <strong>Na concepção religiosa essa dimensão negativa faz com que uma parcela esteja numa condição superior à outra e assim ela se vê no lugar de julgar o outro, de condenar o outro e, se usa aí uma palavra difícil, que é questão da verdade – e numa perspectiva de exclusão, se eu tenho uma verdade o outro tem uma mentira, se eu tenho uma verdade eu me sinto na obrigação de eliminar o outro. Eu diria que do ponto de vista teórico, a gente pode pensar o fundamentalismo religioso dentro dessa premissa. </strong></p>
<p style="text-align:justify;">Agora, do ponto de vista técnico, a gente tem dados históricos que vão mapiar os momentos específicos de surgimento de uma teoria fundamentalista. No livro do Leonardo Boff sobre fundamentalismo religioso, ele mostra que a forma que igreja católica fazia as cruzadas, na idade média, é possível ver traços do que teoricamente a gente poderia definir como fundamentalismo. Mas o termo fundamentalismo nasce na primeira década do século XX, nos estados unidos, e tem uma questão teológica de fundo, que é um movimento de teologia que surge na Alemanha, especificamente. A gente chama de teologia liberal – era um projeto teológico que queria estabelecer um diálogo com todo o movimento de filosofia, de literatura, tudo fruto da teoria do liberalismo do século XVII, que influência todas as áreas do saber. Em nome desse diálogo você tem a relativização de alguns valores da teologia. O método histórico crítico faz, naquela época, com que haja um olhar para o passado, à luz daquilo que você entende ser verdade. Alguns textos do antigo testamento e de Jesus Cristo foram lidos como mitológicos. O que aconteceu? Veio a primeira guerra mundial e a segunda guerra mundial. Os evangélicos dos estados unidos concluíram que os releitores dos textos sagrados foram os responsáveis por esses problemas. Então foi proposto que houvesse um retorno a dimensões fundamentais da fé cristã. Foi feita uma revista chamada os fundamentalistas, que ainda não tinha esse caráter de fulminar o outro em nome da minha verdade. Mas foi mais tarde, junto com uma visão imperialista, que esses valores construíram uma epistemologia fundamentalista, que diz: a partir da minha verdade eu tenho o direito de eliminar o outro. E a partir daí a questão fundamentalista ultrapassa a perspectiva religiosa. Há também o fundamentalismo econômico. Há uma ética capitalista que justifica que um país tenha muito e outro não tenha nada.</p>
<p style="text-align:justify;">Para ilustrar isso que acabei de falar: eu orientei uma monografia de um surdo, que concluiu o curso de teologia. Uma das maiores angústias do graduando era descobrir no trabalho científico dele, que pensando na ética do capitalismo como deficiente ele não consegue produzir no ritmo que o modelo produz. Não consegue produzir num ritmo de uma sociedade formatada nos valores das pessoas que são “normais”. Ou seja, a epistemologia fundamentalista passou a ser um modo de nós percebermos a vida e a existência. É uma dimensão que tangencia a vida e vai colocando do lado de fora aqueles que não servem para a nossa convivência. Porque nesse modelo, eles não têm o que oferecer, a partir do que nós já pré-estabelecemos o que é o comum.</p>
<p style="text-align:justify;">Se por um lado há coisas muito bem solidificadas, por outro lado, parece que o rumo da história está se tratando de desconstruir algumas questões que foram colocadas séculos e séculos como unânimes: a questão da mulher, a questão das classes excluídas. É um tempo interessante. Para algumas pessoas um tempo de angústia, mas para outros de muita esperança. É aí que eu me situo. Apesar da angústia, perpassa também a esperança.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> “<a title="Gol para o planeta" href="http://www.youtube.com/watch?v=SlOlDigbsMc" target="_blank">Gol para o planeta</a>”. Fale do projeto e da sua tese de doutorado.</p>
<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://flaviamuniz.wordpress.com/2010/11/23/trocando-ideia-com-dell-delambre/"><img src="http://img.youtube.com/vi/lr-greLg3mM/2.jpg" alt="" /></a></span>
<p style="text-align:justify;">(continuação do vídeo&#8230;) Em minha tese de doutorado, eu já propunha um caminho alternativo de contemplação da realidade e encantamento da vida. Nela está a base para se pensar a sustentabilidade integral, mais que a economia e a técnica. Os quatro anos de estudos de doutorado marcam os movimentos em minha vida: parte da tese reflete meu período na favela carioca, parte reflete o contraste experimentado no contexto da Alemanha e a última parte reflete minha chegada ao tema do aquecimento global, isto é, o contato com o Centro de Educação Ambiental Gênesis, em São Gonçalo, Rio. Em princípio, minha vida é extensão e continuidade de minha tese. No próximo ano, entro de cheio na pesquisa sobre mudanças climáticas. Estive em Berlim em Janeiro desse ano de 2010, no Instituto Urânia. Ouvi uma importante conferência com o Dr. Stefan Rahmstorf, pesquisador e professor da universidade de Postdam, Alemanha, que esteve na COP15.</p>
<p style="text-align:justify;">O projeto Gol para o planeta está entrelaçado em tudo isso. Os alunos da faculdade, em particular do PFint, Programa de Formação Integral da FABAT, utilizam a comunidade do Mato Alto, através do projeto “<a title="Gol para o planeta" href="http://www.youtube.com/watch?v=SlOlDigbsMc" target="_blank">Gol para o planeta</a>”, para o desenvolvimento dos seus trabalhos e das suas pesquisas de extensão. Através do projeto, em 2011, conheceremos todo o processo de recuperação e revitalização da Lagoa Rodrigo de Freitas. Conheceremos o percurso do Rio Maracanã: partes mortas e partes vivas. No projeto “Gol para o Planeta”, com a graduando em história, Aline Nobre, privilegiamos a “história oral”.</p>
<p style="text-align:justify;">Temos algumas metas e ações. No mês passado, fizemos uma caminhada ecológica dentro da comunidade com alunos universitários e pessoas da comunidade. Foi feito um debate com o título “recontando a história” com intuito de resgatar a história oral. O projeto “Gol para o planeta” é também onde eu encontro sentido pra minha vida, é um projeto voluntário. A ideia é que ele seja um projeto piloto de algumas coisas que nós achamos importantes para o desenvolvimento do Rio de Janeiro. Quando pensamos em Copa do Mundo e Olimpíadas em 2014 e 2016, desejamos que em 2016 haja uma geração de crianças e adolescentes com um legado de uma educação diferenciada. Isso seria uma forma de fazer com que a cidade fosse boa para todos. Esse é o sonho do projeto “<a href="http://www.youtube.com/watch?v=SlOlDigbsMc" target="_blank">Gol para o planeta</a>”.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> eu pensei que vocês tivessem apoio. O que eu acho interessante no projeto é que aborda a dimensão sonho do ser humano e a auto-estima.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>DELLAMBRE:</strong> Esse é o nosso ponto central. E aí, com dinheiro ou sem dinheiro, a gente consegue fazer. Tenho vários voluntários que sempre ajudam. Por exemplo, na pré-produção, direção e planejamento do Videoclipe “Gol para o Planeta”, a cantora e jornalista Claudia da Luz Montenegro, deu todo apoio. Sem seu talento e competência, ficaria muito difícil a finalização da idéia. Do início ao final, sua contribuição trouxe características bem profissionais à produção na parte de teatro, texto, atuando como cineasta, correção da música do videoclipe. Contamos com sua competência também nos projetos dos documentários e o filme que sonhamos produzir.</p>
<p style="text-align:justify;">E na minha experiência lá, posso dizer que a teologia foi fundamental. Na época da barra pesada lá na favela, coisas sobre as quais não me é licito falar, entrei em lugares onde o Estado não podia ir, o psicólogo também não, o pedagogo também não. Mas eu nunca tive problemas, entrava e saia e estava presente nas situações limites que tangenciavam a alma humana naquele contexto.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> Ontem saiu um relatório da ONU, nada otimista, sobre as “perspectivas da alimentação”. Outro dia eu vi que você publicou algo sobre esse tema. Em que grau isso te assusta e como é o elo disso com a sua pesquisa?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>DELLAMBRE: </strong>O conceito de sustentabilidade que trabalho e desenvolvo nas minhas pesquisas, chamo de “<strong>sustentabilidade dos valores da vida, para a vida”</strong>. “Para minha pesquisa, pouco importa se há ou não o Aquecimento Global, pois nosso Esfriamento Relacional já atingiu de cheio a biodiversidade&#8221; D. Delambre.</p>
<p style="text-align:justify;">A questão da sustentabilidade hoje é tão central que ela não pode ser reduzida a uma fatia da sociedade. É um tema que necessita da contribuição de todos. <strong>E onde é que eu me situo quando se fala nessa questão da pobreza, do ponto de vista da sustentabilidade? Acredito que a humanidade chegou num momento que já pode definir quais rumos vai e quer tomar. </strong>Antigamente, se alguém nascia com alguma deficiência, acreditava-se que ele estava sendo submetido a algum castigado por um determinado mal feito pela família. Essa leitura perpassa diversas culturas e também a bíblia judaica e cristã no Antigo Testamento. Um aprofundamento sobre a crise da “teologia da retribuição” no Antigo Testamento pode-se compreender isso. Do ponto de vista teológico, na Idade Média, foi ensinado que o deficiente era alguém que não tinha alma e precisava ser batizado para obtê-la. Isso é também um aspecto.</p>
<p style="text-align:justify;">Outros exemplos negativos na história são as guerras. Mas <strong>hoje nós temos acesso a uma gama de acontecimentos da história da humanidade que nos confrontam e nos indagam se é isso que a gente quer continuar sendo como humanos.</strong> <strong>É aí que entra a questão da pobreza, é aí que entra a questão da fome, é aí que entra a questão da miséria. </strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>“A pobreza é um atentado contra a humanidade, assim como o desenvolvimento insustentável é um homicídio contra a biodiversidade.” D. Delambre </strong></p>
<p style="text-align:justify;">Se a questão do aquecimento global é uma questão que diz respeito à preservação – o que eu poluo aqui no Brasil interfere lá na Europa e o que eu poluo lá na Ásia, ele interfere aqui no Brasil. É aí que eu me situo dentro da sustentabilidade. É a sustentabilidade na complexidade. Se a mulher que varre a casa, não conseguir entender o que estamos discutindo e seu lugar no mundo, não há sustentabilidade integral. Todos os pesquisadores admitem, de uma forma geral, que há uma aceleração da extinção da biodiversidade e nós temos que cuidar! Muitas pessoas morrem em função da forma de convivência que nós estabelecemos para o mundo. É quase uma anomalia a gente discutir a questão aquecimento global e da sustentabilidade sem inserir a questão da fome e da miséria, a matemática não fecha. Sentimos a fome todos os dias: recentemente na Etiópia, no Haiti, nos países da África, nas regiões mais pobres da América Latina; tem a crise do desenvolvimento  e crescimento na China – chegando a primeira economia, mas com o IDH (índice de desenvolvimento humano) comparado a favela do Alemão – <strong>que desenvolvimento é esse?</strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> E você acredita que há esperança?</p>
<p><strong>DELLAMBRE: “Se a história passar mim, pego carona e vou de carrinho de rolimã.&#8221; </strong><strong>D. Delambre</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Um dia, uma pessoa que amo muito me chamou de poeta da esperança. Aquilo me despertou atenção. Minha esperança não é simplesmente a etimologia da palavra “utopia”, isto é, na semântica de “utópico”. A esperança de que falo também não é uma espera passiva. Ela não também não é um apanágio de promessas que vem como auto-ajuda em dias nublados. O conceito de esperança que desenvolvo e aprofundo pode até tocar em tudo o que foi dito antes. Mas ele se propõe a degustar a vida como nascimentos profundos de virtudes que se quer conhecemos em nós e na realidade pluricolor que nos cerca. No ofício cotidiano de varrer uma casa, é possível des-cobri-la. Está em nós e fora de nós; está no passado, no presente e no futuro. Une a totalidade da vida, mas dificilmente pode ser ativada se a dor não for estabelecida como passagem; como limite e fronteira pra existir. <strong>“A Nossa Carência é tão Absoluta que se compara à mina de San José, Chile.” D. Delambre </strong>Tudo isso está em dimensões tanto locais como globais; são faces de um mesmo rosto; ou expressões fragmentadas de um único prazer que reverbera, como fogo, luz, energia e vida, nas partes do corpo de uma mesma mulher.  Ou são como estrofes que compõem os versos do poema que escraviza para libertar a Poesia de sua transcendental-idade.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>&#8220;A Vida é uma Catástrofe de Esperança, Felicidade.&#8221; </strong><strong>D. Delambre</strong><strong> </strong></p>
<p style="text-align:justify;">Neste sentido, o futuro, só quem viver, verá. Eu costumo usar a metáfora do amor. Nós não temos a resposta pronta. É sempre risco arriscado de padecimento. E aí gente cai de novo na teologia: uma das dimensões da teologia é você aprender a caminhar na vida sem ter todas as respostas. “A religião que acredita ter todas as respostas ensina seus adeptos a trocar a fé arriscada por muletas e bengalas”. D. Delambre É necessário aceitar essa fragilidade humana que nos tangencia, mas diante da fragilidade, podemos brincar com ela, fazer poemas, ser tomado pela Poesia; fazer música, sermos solidários, chorarmos juntos; choro e ombro são também respostas para as tragédias que nos marcaram sempre. As capitais perderam muito dessa convivência e comunitária interiorana e favelada. “Nessa noite regada de choros, eu posso dormir frágil e acordar forte em minha carência”, porque a fragilidade se tornou minha aliada.</p>
<p style="text-align:justify;">São muitos desafios que nós temos, como humanidade, para ser superados. Contudo, vivemos um momento central na história humana. Algo dessa Esperança que me alimenta hoje é parte desse poder que há bilhões de anos foi combustão para que a Vida imperasse sobre a morte, por isso estamos aqui. É como uma criança que deseja empinar uma ‘raia’, mas precisa da ajuda dos coleguinhas pra fazer a rabiola. Cada um dá a sua contribuição, mas sem a força oculta do vento, todo trabalho conjunto é vão. A esperança é esse vento que sustenta a pipa. Ele não pode ser visto, mas pode ser sentido. Às vezes, ele vem com tanta força que arrebenta a linha e a pipa voa na imensidão do céu. “Essa Esperança não se controla; com fé, credita, caminha, sofre e ama.”</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> Eu queria que você falasse da sua teoria centro gravitacional.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>DELLAMBRE:</strong> Na verdade, acho muito ousadia propor a construção de uma teoria sobre a qual há algum tempo venho refletindo. É preciso afirmar antes que todo olhar é um olhar a partir de um ponto de vista. Ou seja, todo olhar, é uma “Olheitura”. Como toda leitura que não seja plágio, é uma releitura. Neste sentido, toda experiência é uma experiência a partir da minha própria experiência. É o risco de escapar da patologia mimético-social que forma para iguais, e como ninguém jamais conseguirá ser igual, temos seres alijados, decapitados de suas peculiaridades, que foram forjadas dentro da dor da sobrevivência humana, desde o nascimento até a adaptação ao meio. Essa teoria do “Centro Gravitacional da Existência Humana” é uma proposta que está ainda em construção. O título não tem muita ligação com o termo técnico-científico, é mais uma questão semântica. Os termos precisam ser interpretados no contexto do prédio ou da casa de lixa erguidos numa favela – metáfora, óbvio. Em cada momento, cada viagem, cada pergunta, e um tijolo é colocado na construção. Não dá pra per-correr no amor, é imprescindível degustá-lo.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu apresentei um pequeno esboço dessa proposta numa semana de extensão e pesquisa aqui no Rio de Janeiro, na FABAT, ano passado. Ela também está na base do projeto “Gol para o Planeta”. O fundamento dela nasce de uma retomada da minha própria história lúdica da infância, da formação acadêmica e da minha vivência na comunidade do Mato Alto. Ela nasce também do meu contato paradigmático – que me deixou marcas indeléveis – com o contexto europeu, especificamente, a Alemanha e no drama da alma e da resiliência humana. Existem algumas diferenças bem interessantes entre a Alemanha e o Brasil, mas na alma gravitacional, há muitas coincidências. Nessa teoria temos uma discussão intensa sobre as potencialidades humanas, mas na sua total e integral coexistência com tudo, tudo que existe e já existiu no planeta. De alguma forma, toda a história bifurca em nós com suas virtudes e seus fracassos. Por outro lado, essa teoria percebe que há alguns séculos gestamos uma formatação teórica e prática na sociedade, que não favorece o desenvolvimento de habilidades peculiares, interiores e conectivas, processuais, que são oriundas da totalidade da vida de cada pessoa e da totalidade de sentimentos carregados de energias positivas, negativas, contraditórias e paradoxais que ecoam como um único canto que harmoniza de Sentido e significados a história musical dos ritmos do Universo e dos batidas que pulsam nosso coração, possibilitando que o sangue per-corra por todo o nosso corpo de vida. Cada pessoa é peculiar-conectiva para si e para além de si mesmo; cada ser e cada pessoa é o centro gravitacional do Universo, quando encontra o Sentido musical e poético de si mesmo no Todo. Tudo tem um Sentido, mas o significado é dado por cada um de nós. Viver é ressignificar constantemente e provocar sentimentos integrativos e/ou destrutivos.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> Você chamaria isso de dom?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>DELLAMBRE:</strong> Eu não chamaria de dom, porque senão poderíamos correr o risco de dizer que você tem e eu não tenho. É mais abrangente, não é parte da pessoa, mas a pessoa inteira. A “Teoria do Centro Gravitacional da Existência Humana” é um processo de olhar, é uma nova perspectiva da descoberta de quem eu sou. É como se nós definíssemos muitas máximas da vida cedo demais.  Em geral, essas máximas estão formatadas à luz daquilo que as pessoas disseram que nós somos. Depois de um tempo, nos tornamos dogmas de nós mesmos. E depois de anos, nos ajustamos a estes dogmas. E não nos iludamos, esses dogmas são mais fortes que imaginemos. Eles influenciam a estrutura subliminar de toda uma geração. A desconstrução também é dolorosa. Não tenho pretensão de dizer algo novo do que outros já disseram, tenho sim a pretensão de sentir e ouvir uma intuição que é a simbiose da peculiaridade do que sou na diluição energética do Universo.  Quanto mais ouço e des-vendo essa minha peculiaridade-conectiva com todo o passado cósmico e o presente cibernético, transições que quem viveu 40 anos atrás, não experimentou, posso colocar um tijolinho com pintura nova nessa casa comum simbólica da humanidade.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> O que dá uma perspectiva de não se experimentar, né?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>DELLAMBRE:</strong> por quê? Por que dentro desse modelo você acaba formando um cérebro que não acredita mais que ele tem condições de vivenciar outro tipo de experiência, de vivenciar outro tipo de realidade, de desenvolver outras habilidades. Somos tendenciados a acomodação sem a ebulição. E aí essa teoria detecta um grave problema: dentro dessa formatação podemos ter uma gama de pessoas desenvolvendo habilidades para as quais elas não têm uma interligação direta ou reflexiva com o centro gravitacional da sua própria existência. Isso porque a conjuntura social, cultural, educacional, familiar, religiosa não nos dão condições de desenvolver tudo aquilo que poderíamos desenvolver. E qual o caminho que a teoria informe propõe?</p>
<p style="text-align:justify;">A primeira coisa é arriscar a se “contemplar” de forma diferente do que todos te olham. Arriscar-se a olhar um pouco diferente do que a sua educação familiar, religiosa e social te formataram. São quedas no olhar. É um pouquinho de desconfiança de que o seu destino já foi traçado. Que vai morrer nessa profissão. Que jamais poderá amar novamente, etc. Atenção! Essas questões periféricas são apenas caminhos para alcançar a dimensão profunda de nossa própria existência peculiar e conectiva. Não existe resposta pronta, mas toca, com os anos, na estrutura ou centro fundamental e fundacional da própria vida no Universo. Existem gravitações dentro de você que estão conectadas com outras gravitações que são subjetivas, e que você só pode perceber isso se houver abertura para um nível de sensibilidade que também não é muito explorado no nosso processo de educação e formação.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando fiz a apresentação resumida dessa proposta, fizemos um pequeno fluxograma de forma que cada pessoa pudesse começar a se contemplar e anotar possibilidades e sonhos adormecidos. Define-se um possível fluxograma do próprio centro gravitacional e abaixo dele colocam-se outros eixos gravitacionais. Discorri um pouquinho sobre minha própria história e mostrei como a vida se torna mais aberta, pois a teoria traz algo interessante que destoa da formatação atual: o valor da minha história não está no início, mas no final. Final aqui é, na verdade, o próprio começo de possibilidades. Apenas no final da vida se pode dizer quando realmente foi o início, o meio e o fim. Tempos são vistos em sua radicalidade relativa e tudo passa a depender muito de ressignificações, chances construídas, esperanças perseguidas, oportunidades oferecidas, isto é, a própria vida. Construí um exemplo básico da configuração do meu centro gravitacional e as possibilidades intuitivas que gravitam ao redor dele. O que é centro hoje pode ser periferia amanhã. E o que nunca existia de forma visível, pode brotar nos encontros da centro da existência humana com a existência cósmica. É uma abertura à provisoriedade dos dias e à fragilidade forte de toda vida que traz a VIDA ao Universo.</p>
<p style="text-align:justify;">E qual seria o grande ganho interessante dessa proposta teórica?</p>
<p style="text-align:justify;">É que a gente não vê a vida do começo pro final; a gente vê a vida do final para o começo, do meio pro começo. Existem situações das fases iniciais que são impostas socialmente e que nós nos adequamos dentro de um modelo social para cumprir funções, expectativas familiares e outras. Nessa teoria, a vida pode começar de trás pra frente ou da frente pra trás. Tudo vai depender das descobertas da abertura para a própria Vida que vou assumindo dia a dia à luz do novo que é a própria existência. Há uma grande ênfase na liberdade criativa: mãe pode não ser quem me gerou, mas quem de fato de me deu a vida; irmão pode não ser aquele que tem os mesmos traços genéticos, mas aquele que me auxiliou à Vida; Família pode não ser aquela em que nasci, mas aqueles que me acolhem e me oferecem segurança simbólica de humanidade. Várias outras coisas podem ser colocadas aqui. A lista é extensa e toca nos pólos de desenvolvimento dos tempos e das fases da vida. Percebamos que não é uma anulação da primeira etapa da vida, mas sim um diálogo com ela para o vôo da pipa, impulsionado pelo vento de Esperança, que se mistura às leis que sustentam, movimentam e dão Sentido de Totalidade ao Universo.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> E essa observação é Constante.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>DELLAMBRE: </strong>Constante, constante, constante. Não é só a observação-contemplação que eu faço de mim. É  o que os outros percebem também sobre mim. (o Poeta da Esperança) (ou Gentileza gera Gentileza). É como se, nessa teoria, a gente dissesse que a vida é aberta. E o mais belo dessa experiência é propor uma risco teórico que dialogue com intuições que a gente tem a muito tempo e todo mundo dizia que não. Flávia, se a gente for estudar um pouco a história das pessoas que deram grandes contribuições com avanços para a história da humanidade, essas pessoas tiveram que, em algum momento, romper com uma armadura social. O centro gravitacional é uma integração do ser humano com todas as dimensões da existência. Nada, absolutamente nada, pode ficar de fora. Se desaprendemos a contemplar, desenvolvamos a contemplação. Se beijamos sem apetecer a alma, que desenvolvamos. Se passamos sem sentir que vivemos, que vivamos sentindo sentidos. Se per-corremos e acreditamos que saboreamos, que mudemos, pois a vida é do final-meio para o começo.  Uma dimensão subjetiva costura e integra também a realidade. E essa dimensão não anula a vida, transpassa a vida; não nos retira da realidade, nos joga de novo na realidade; não propõe um mundo que não seja esse, mas que discute esse mundo que a gente está vivendo; que não encontra um refúgio num lugar supostamente perfeito, e por isso que admite o caos como possibilidade da ordem. Admite radicalmente a periculosidade de simplesmente estar vivo. “Todo ser humano tem uma forte tendência à desintegração.” “Todo ser humano tem uma forte tendência à Esperança.”</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> Hoje é dia de Zumbi dos Palmares – símbolo de resistência da cultura negra. Palmares era um quilombo auto-sustentável. Quando foi que você se deu conta que era negro? Nesse sentido, a gente pode falar de preconceito e liberdade?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>DELLAMBRE:</strong> É engraçado. Sempre me perguntam sobre isso, mas eu me descobri como preto meio tarde. Não existia esse nível de percepção na minha infância. As melhores descobertas existenciais, na minha perspectiva, elas passam de alguma forma por esse encontro radical com o negativo. Quando era pequeno e brincava com outras crianças, nós éramos seres humanos e iguais. As dores e as carências nos uniam muito mais do que as diferenças nos separavam. A questão da cor da pele não era barreira. Vivíamos “junto e misturado”, brancos e negros e outros.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu tenho um conto, que é a retomada da minha história. Nele crianças brincam e queriam descobrir de onde vinha a nascente do rio. Elas andam pela floresta e se percebiam como parte integrante da natureza, ela não era estranha, mas apenas outra. Esse conto termina com a crise existencial das crianças, pois quanto mais elas subiam para descobrir a nascente do rio, mais elas descobriam que o rio lá embaixo estava sujo. E quando elas chegaram à nascente, encontraram um mistério: como um filete de água se transformava num rio imenso que alimentava toda cidade. Isso tipifica minha descoberta como negro. A fase adulta, o pensamento crítico, a crise da inocência e a perda da ingenuidade; o encontro da nascente do rio pode ser simbolizado com estes exemplos: ser confundido com o funcionário do laboratório de informática algumas vezes numa faculdade particular rica no Rio de Janeiro; ao visitar uma colega de turma do mestrado no Leme, ao lado de Copacabana, ser confundido com o entregador de encomendas; ser confundido com funcionário hidráulico na Tijuca, ao visitar uma querida família; assistir um prédio ser quase cercado pela polícia em Santa Tereza porque um negro muito bem vestido e aparentado adentrou o apartamento – deve ser um traficante; e por último, ser questionado, por alguns alunos na faculdade de Tübingen, Alemanha, se eu cursava medicina.  Seria quase impossível não experimentar, existencialmente, que a seleção em nosso país, além da classe social, passa pela cor mais escura ou mais clara da pele.  Eu tenho uma frase que é: “Entrar pra universidade é entrar nos dramas da vida”. E foi lá que eu comecei a perceber toda a discriminação contra os negros, que a gente tem uma mídia que privilegia um estereótipo social, etc. Do ponto de vista estrutural, temos ainda muito que construir aqui no Brasil. Quando vivemos em outros países, enxergamos aspectos subliminares de nossa terra.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas toda essa questão não pode vir com o ódio. O ódio é doença. Nós somos o último país da América latina a acabar com a escravidão em 1888. Nessa mesma data, estava sendo criada a primeira universidade destinada apenas para negros nos Estados Unidos. E mais tarde tivemos uma terrível ditadura. Se somarmos o período de escravidão com o da ditadura, todos nós temos muito pouco tempo de uso mais consciente da liberdade. Alguns ranços ainda persistem. Nesse sentido, para um país de quinhentos anos, é muito pouco. É por isso que acredito que nós brasileiros vivemos um momento histórico. É por isso acredito num cinema independente, onde todos podem produzir seus filmes, colocando suas próprias histórias nas telas, nas redes sociais, no you tube. É por isso que acredito na arte como espaço da contracultura. É por isso que acredito nas expressões musicais distribuídas entre amigos, que se tornam os grandes marqueteiros. É por isso que acredito em projetos sociais, como o “Gol para o Planeta”, que ousam dar voz aos diferentes. No dia em que a Esperança e o sonho, que considera a dor e a desintegração, não forem mais condições pra viver, acho que a Poesia terá nos abandonado às mínguas. E certamente, a vida será só nostalgia. Então, é por isso que acredito na proposta da “Teoria do Centro Gravitacional da Existência Humana”, pois aqui a memória é escolha, pois não basta escarafunchar os porões da história, muito melhor é ressignificá-lo, e se possível, ao nosso favor, colocando-o em sua intrínseca relação com as gravitações positivas de nossa interior e conectiva com a existencial-idade. Querer saber que idade temos?, nesse aspecto em que estamos dialogando, é o mesmo que perguntar – numa versão revista, atualizada e googleniana – de onde viemos, porque estamos aqui e para onde estamos indo.</p>
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		<title>TROCANDO IDEIA COM NUNO PINO CUSTÓDIO</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Nov 2010 11:56:58 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Desde que perdi a vinda do escritor Mia Couto ao Brasil, procuro ficar atenta aos eventos da Talu produções. A produtora realizou neste início de novembro o evento “Encontros culturais da língua portuguesa”. Ao receber o convite, logo me matriculei na oficina “Máscaras em movimento” com ator e diretor Nuno Pino Custódio, para uma pequena mostra da metodologia que pesquisa. Durante o mini-curso uma frase dele chamou a minha atenção: “Teatro é você ir para trás e fazer com que acreditem que está indo para frente.” O objetivo do método das máscaras? Prefiro que tu descubras lendo a entrevista. O que posso dizer é que gostei tanto, que Nuno furou fila de outros entrevistados. É muito bonita a maneira que ele desenvolve as idéias. Palavras, vídeos e um trecho em áudio de Nuno declamando Álvaro de Campos. Bom espetáculo!<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=flaviamuniz.wordpress.com&amp;blog=9800770&amp;post=218&amp;subd=flaviamuniz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://flaviamuniz.files.wordpress.com/2010/11/nuno-lendo.jpg"><img class="aligncenter size-large wp-image-221" title="nuno-lendo" src="http://flaviamuniz.files.wordpress.com/2010/11/nuno-lendo.jpg?w=724&#038;h=1024" alt="" width="724" height="1024" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Desde que perdi a vinda do escritor Mia Couto ao Brasil, procuro ficar atenta aos eventos da <span style="color:#800080;"><a href="http://www.talu.com.br/" target="_blank">Talu produções</a></span>. A produtora realizou neste início de novembro o evento “Encontros culturais da língua portuguesa”. Ao receber o convite, logo me matriculei na oficina “Máscaras em movimento” com ator e diretor Nuno Pino Custódio, para uma pequena mostra da metodologia que pesquisa. Durante o mini-curso uma frase dele chamou a minha atenção: “Teatro é você ir para trás e fazer com que acreditem que está indo para frente.” O objetivo do método das máscaras? Prefiro que tu descubras lendo a entrevista. O que posso dizer é que gostei tanto, que Nuno furou fila de outros entrevistados. É muito bonita a maneira que ele desenvolve as ideias. Palavras, vídeos e um trecho em áudio de Nuno declamando Álvaro de Campos. Bom espetáculo!</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> <span style="color:#800080;"><a href="http://nunopcustodio.blogspot.com/" target="_blank">Nuno Pino Custódio</a></span>. Que definições habitam a existência que leva esse nome?</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://flaviamuniz.wordpress.com/2010/11/07/trocando-ideia-com-nuno-pino-custodio/"><img src="http://img.youtube.com/vi/FMyZRcsPBQA/2.jpg" alt="" /></a></span></p>
<p style="text-align:justify;"><strong><span style="color:#800080;"><a href="http://nunopcustodio.blogspot.com/" target="_blank">NUNO</a></span>:</strong> (continuação do vídeo&#8230;) mais artística, e tinha esta vertente também no meu trabalho. Então eu pensava que resumia bem o que eles me davam. É uma forma de lhes agradecer também uma coisa muito importante, que eu conheço dos dois de formas diferentes, um amor que me deram pela vida, pela descoberta das coisas. Há um amor que eu tenho, quando me próprio das coisas, que é deles. Então pensava que isso não era justo, que não podia assinar uma ficha artística só com o nome do meu pai e a minha mãe ia ficar de fora, quando ela estava ali tão bem representada. <strong>O maior patrimônio que os pais podem deixar aos filhos são recursos interiores para amarem a vida. Isso os afasta de qualquer problema no futuro.</strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA: </strong>Conta como surgiu o teatro na sua vida e quando passou a usar o método das máscaras.<strong> </strong></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://flaviamuniz.wordpress.com/2010/11/07/trocando-ideia-com-nuno-pino-custodio/"><img src="http://img.youtube.com/vi/y8jmbrF_OmE/2.jpg" alt="" /></a></span></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA: </strong>Você podia falar um pouco da sua metodologia de escrita, onde você se utiliza dos atores e de todo o processo criativo.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong><span style="color:#800080;"><a href="http://nunopcustodio.blogspot.com/" target="_blank">NUNO</a></span>:</strong> Por causa de uma relação cultural que temos com a escrita, por causa de uma forma muito antiga de fazer teatro &#8211; que para mim já está gasta &#8211; existe a prática de se fazer um texto, ou seja, a proposta do espetáculo é o texto, está escrito num livro, no papel, seja lá onde for, que contém a fala das personagens. Então essa é uma perspectiva que nós chamamos <em>textocentrista</em> e eu penso que é muito redutora para uma ideia que o teatro tem encerrada em si mesmo. Diminui o teatro essa visão <em>textocentrista, </em>mesmo que culturalmente seja um objeto muito interessante, valioso, profundo, humano. Porque depois é possível, de fato, nós termos ali aquele texto e levá-lo para uma camada de interpretação que parece que não era texto escrito, registrado. Então, de uma forma comum, decora-se um texto, estuda-se o texto, percebe-se o seu sentido e fecha o espetáculo. <strong> </strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Eu penso que tenha que haver outras propostas de teatro, sobretudo porque vivemos numa sociedade, toda ela parada no ego, na mente, no intelecto. Então andamos viciados na cabeça, no texto, no pensamento e somos extremamente infelizes com isso. O pensamento acaba por ser histeria apenas. As pessoas falam, falam ,falam, falam e falam da morte para não falarem da morte, já chegamos a este ponto. Vivemos mundos muito virtuais. Nas nossas cidades, nas nossas ruas, não aprendemos a viver. Criamos uma espécie de “second life”.</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Eu vou a tabacaria comprar tabaco, olha eu ir a tabacaria comprar tabaco, olho a pessoa a vender-me tabaco. Observamo-nos. É só o texto. <strong>Falamos com as pessoas e apenas é o texto meu e dela que interagem, mas não somos nós. E quantas vezes, não quase sempre, os nossos corpos estão a dizer coisas diferentes? Isso chega ao cúmulo de nós termos objetivos para nossa vida e lutarmos uma vida inteira por objetivos, que não são coisas que queremos. O ego não somos nós. É um eu social. A voz do ego que está sempre a falar não é a nossa voz. </strong>Diz coisas que não nos representam, inclusive. Sai por nosso corpo, mas não somos nós que dizemos. <strong>Então eu penso que o teatro é solução para estancar isto, voltarmos ao corpo e a sensação de presença, voltarmos a sentirmos presentes: eu tenho mãos, eu tenho ombro, eu estou aqui, tu estás aí, o mar está ali. Estamos a viver! Então é isso que eu proponho. Não pode ser lendo um texto, que é toda uma lógica parada no intelecto.</strong> Quando eu escrevo teatro é a mesma coisa. Eu escrevo com a cabeça, não com o corpo. A primeira coisa que me apetece fazer quando vejo uma folha de papel branca é pensar no que as personagens vão dizer. Então a ação fica remetida ao que as pessoas dizem e ação é muito mais do que isto.</p>
<p style="text-align:justify;">Aquele senhor está descendo a praia e o corpo dele diz qualquer coisa, não é? Está cansado. Eu já não sei dizer que está cansado. Eu preciso dizer que está cansado para perceber que está cansado.<strong> Não há uma experiência de descoberta no cotidiano. Há um texto que a gente obedece. </strong>Eu quero que os expectadores nas minhas peças aprendam no corpo e não que esteja informado. Eu não quero palavras mais. <strong>Eu não quero que a casa tenha um rótulo a dizer casa. Eu quero que se sinta que se está numa casa, percebes? Que é isso que acontece nas nossas ruas. Nós não sentimos que estamos a fazer coisas. Nós combinamos e convencionamos que estamos a fazê-las. Então eu penso que o ser humano tem o direito de pensar que deve ser feliz. Nós estamos cá para isso, eu acredito nisso. </strong>Há cem anos atrás, morria-se com 40 anos, era normal, então na perspectiva da sobrevivência do ser humano nós nos reproduzíamos e depois morríamos, mas agora aqueles que são pais continuam vivos, reformam-se e a pergunta é feita a cá: e agora? O que eu faço? Eu quero ser feliz! E a felicidade já não precisa mais ser na outra vida. Porque ela era prometida na outra vida. Morremos mas depois vamos para o paraíso. Não. O paraíso é aqui. Então a questão da felicidade é uma questão que se coloca aqui-agora, hoje. E as pessoas não estão nada felizes. <strong>Se tu vais a Nova York qualquer pessoa está com uma pressa de qualquer coisas, está com uma infelicidade nos olhos. Eu não sei se consigo ser feliz, nem sequer quero pensar nessa questão, mas a luta para isso é o que basta. Estou vivo. Pronto.</strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> Tanto no curso quanto na peça eu percebi uma questão muito forte de pensar um tempo diferente desse proposto pelo capitalismo e também uma questão do que é a essência da vida.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong><span style="color:#800080;"><a href="http://nunopcustodio.blogspot.com/" target="_blank">NUNO</a></span>: Eu penso que há todo um mecanismo que está muito bem montado. As pessoas são tentadas a sentir a sua identidade através dos objetos, do ter. Portanto há uma identificação com a forma e não com o conteúdo. E isso dispoleta, precisamente, o ego. Eu sou aquilo que tenho, portanto, eu sou mais poderoso, eu sou mais rico, eu sou mais famoso, eu sou mais amado etc., e quando as pessoas estão no ego elas estão no oposto do seu ser verdadeiro,</strong> literalmente, na Austrália, nos antípodas – para nós em Portugal a Austrália é o contrário – e então as pessoas se desintegram. Já não há mais um sentimento coletivo. Está cada um por si. Desintegradas as pessoas são manipuladas, porque já não é um conjunto, já não há um grupo de pessoas a fazer Revolução Francesa, todos que tem a Revolução Francesa dentro de si, mas como somos ilha, não temos força. Então facilmente somos derrotados, ou seja, <strong>nós somos muitos, somos milhões, mas somos milhões semelhantes. Somos o mesmo. Temos a mesma roupa, os mesmos desejos, os mesmos pensamentos, os mesmos passatempos, o mesmo ideal de férias, isto de uma forma geral, claro. Então não existe uma consciência, as pessoas são manipuláveis. Se são manipuláveis, são instintivas. Alguém te diz vai para ali e tu vais para ali. Alguém te diz compra e tu compras. Alguém de diz como te chamas e tu respondes logo. Na revolução industrial era o carvão, era a lã, era o milho, eram as matérias-primas. Hoje as matérias-primas são as pessoas com cartão de crédito. </strong>O que é importante é que o dinheiro circule. O que é inimigo disto? É parar e pensar. Se tu paras a engrenagem bloqueia. <strong>O que eu proponho as pessoas nas minhas aulas é simplesmente pararem. Podem errar, podem parar, podem pensar duas vezes antes de fazer e se fizerem mal podem voltar a parar. É possível isto na vida.</strong> Só atravessar a estrada é que não, isso é perigoso. (risos) Mas é possível alguém me perguntar como é que eu me chamo e eu pensar como é que vou responder. É uma questão de consciência. Vou dizer com as vogais mais abertas porque estou no Brasil. É só ter uma possibilidade de sentir, pensar e depois agir. Ao invés de ser instintivo. Até porque se eu for instintivo eu não estou a fazer teatro, eu não sou outro. Se eu não tiver consciência do meu corpo eu não estou a ser aquela personagem outra. Então a questão do tempo passa muito por aqui, de criar consciência, antes de fazer, consciência. Porque senão eu não crio, eu não sou artista, eu não estou a passar de dentro para fora. Se não houver uma intencionalidade, eu não chamo isso arte. Eu tenho que ter consciência do que estou a fazer, porque senão não estou a comunicar nada. Estou apenas a agir.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> Explica o que é a “ESTE” (Estação Teatral da Beira Interior). E porque optar por fazer a companhia fora do grande centro que é Lisboa.</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://flaviamuniz.wordpress.com/2010/11/07/trocando-ideia-com-nuno-pino-custodio/"><img src="http://img.youtube.com/vi/ZiLUqTJzSPQ/2.jpg" alt="" /></a></span></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> O que move a sua escrita? E me diz também suas preferências literárias e musicais.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong><span style="color:#800080;"><a href="http://nunopcustodio.blogspot.com/" target="_blank">NUNO</a></span>:</strong> Quando escrevo procuro outro tempo, outro espaço, outras pessoas. Tudo longe. Tudo não-eu. E procuro ser isto depois, quando escrevo. Procuro viajar até lá: de mim até a personagem, de mim até a situação. E viajar descobrindo. E nesse encontro com o outro descobrir-me realmente. Em termos gerais, acho que é isso que eu procuro. Normalmente as minhas peças são sempre feitas de imaginários muito distantes. São quase sempre peças de outros tempos. Quase nunca cotidianas. Esta peça dos Cozinheiros é muito próxima do meu tempo, mas normalmente são peças em que o imaginário é no século XIX ou na idade média ou no século XVII. É sempre o mais distante de mim possível, porque a grande viagem é essa: é de uma pessoa para outra. Depois procuro humanidade. Procuro acreditar que isto é humano. Está tão distante de mim, está tão longe. É um lavrador do século XVII, que mal sabe falar português e é tão humano, é tão verdadeiro. Eu acredito no que está a acontecer. Então aí me sinto realizado e posso pensar nisso como um objeto para teatro. Posso dar isso a alguém. <strong>Tudo o que eu procuro é que o ser humano se veja em espelho, sinta, se reflita lá, se identifique com o que está a acontecer. Quanto mais distante for o universo melhor ainda. É um imaginário que eu nem imaginava que acontecesse e de repente eu sinto-me lá, é fantástico! Eu penso que as sociedades orientadas pelo capitalismo despistam a ideia de humanidade. Des-ensinam as pessoas a serem humanas, a sentir o humano. E o teatro justamente propõe o contrário. Se não tiver a vertente do humano ali, não funciona.</strong> Eu acredito que o teatro é mesmo necessário. O teatro é uma necessidade e vai sempre existir. Uma necessidade antropológica, quanto mais não seja, do ser humano. O que eu procuro com a escrita é mais isto.</p>
<p style="text-align:justify;">As minhas leituras: eu tenho uma relação muito estranha com os livros. Tenho muitos livros. A minha mãe é bibliotecária, e até a minha adolescência vivemos numa casa que nos expulsou de casa, porque já não cabíamos lá dentro, tinha muitos livros. Minha mãe comprava livros compulsivamente e não os lia. O ato de comprar um livro era um ato cultural. Eu criei uma relação de afastamento com isto. Li muito pouco. Devo ter lido dez, doze romances em toda a minha vida. Embora minha relação com o livro seja uma relação muito próxima. O que eu leio, sobretudo, são livros de ciências, livros técnicos, sobre neurobiologia. Antônio Damasio é um autor que eu aprecio muito. Eu penso que essa relação de afastamento com a escrita me ajuda bastante na ideia de teatro que construo, que é, sobretudo, uma ideia sustentada na visão.</p>
<p style="text-align:justify;">O que eu mais ouço? Eu gosto de música. Tenho um i-pod com toda a minha coleção de discos, são novecentos CDs. E tem de tudo: música medieval, música experimental, música grega, mediterrânica. Gosto imenso da música cigana dos Balcãs, as fanfarras. Gosto muito de música brasileira. É muito freqüente um português ter a discografia do Caetano, ou do Chico, ou do Gil ,ou do João Gilberto, ou do Tom Jobim. São compositores tão conhecidos quanto os compositores portugueses, lá. O Chico eu acho que é precioso, é monumental. Tenho os discos todos do Chico Buarque. Gosto de jazz, gosto de música clássica. Não gosto de música muito moderna. Gosto muito da melodia. Sou muito melómano. Porque se a melodia for fácil de ouvir e doce, eu gosto. Seja o que for. Gosto de Paulinho da Viola, muito! Conheço Paulinho da Viola desde os quatorze anos, sem nunca pensar que poderia chegar ao Brasil.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> Eu gosto de fazer uma pergunta: o que é ser humano?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong> </strong><span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://flaviamuniz.wordpress.com/2010/11/07/trocando-ideia-com-nuno-pino-custodio/"><img src="http://img.youtube.com/vi/9NeHWnPBetQ/2.jpg" alt="" /></a></span></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> O que é o mais importante da vida?</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://flaviamuniz.wordpress.com/2010/11/07/trocando-ideia-com-nuno-pino-custodio/"><img src="http://img.youtube.com/vi/S-Qsmme6oK0/2.jpg" alt="" /></a></span></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> Teatro vem da palavra <em>theos</em> – que é dar a ver – que também origina a palavra teorema, teoria, tanto que esse termo foi até associado a Deus. Eu queria que você falasse um pouco, já que você está nesse movimento de desejar menos: o teatro é uma forma de religião, de conversar com Deus, de estar aqui-agora vivo e se descobrir?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong><span style="color:#800080;"><a href="http://nunopcustodio.blogspot.com/" target="_blank">NUNO</a></span>:</strong> Sim. Há uma frase do Fernando Pessoa que sempre sigo, ele diz &#8211; eu penso que é o Alberto Caeiro ou Ricardo Reis &#8211; agora não me recordo, mas também não é importante, ele diz que ver é sentir. O hinduísmo diz que ver é dizer a verdade. Então o importante é ver e ver não é só estar a olhar o que está a frente, é ver, ter esta consciência, estar a acontecer isto. Eu estou a ver. <strong>Penso que o teatro é esta grande possibilidade, porque nós isolamo-nos e preparamos qualquer coisa para ser vista e alguém vai dizer “eu vi”. Porque foi feito para eu ver. Então ser ator ou ser diretor ou ser espectador é tudo a mesma coisa. São extremidades da mesma coisa. Eu costumo dizer até que o autor foi o espectador que ousou fazer. O espectador foi ator que ousou ver.</strong> É tudo a mesma coisa. <strong>Os seres humanos, portanto, tem a oportunidade de ver melhor com o teatro, ou seja, dedicam tempo a trabalhar um assunto,</strong> a ver de vários ângulos, a refletir sobre ele, a escolher o melhor ângulo para ser visto, a aprender a fazê-lo de novo e dedica um tempo para se concentrarem no espaço e no tempo para chamar outros em maior número, não apenas aleatoriamente. <strong>Então todos se reúnem e isto é divino. Numa certa perspectiva isto é acima. Esta perspectiva de convencer toda uma sala a acreditar numa história, isto é extraordinário, não é?</strong> Isto é muito bonito. Então esta história aconteceu e toda gente vai ficar a pensar que aconteceu desta forma. <strong>Tenho que fazer para que todos entendam: pessoas de extratos sociais diferentes. Preciso encontrar um signo para todos perceberem. Então isto me obriga a pensar no outro. Constantemente no outro. Eu penso que isto é uma forma de estar com Deus.</strong> Eu não tenho religião nenhuma. Não acredito em deus nenhum. Respeito todas as outras religiões, mas acredito num ser humano superior, numa dimensão divina, acredito numa elevação.</p>
<p style="text-align:justify;">No final da entrevista perguntei ao Nuno se ele gosta de Fernando Pessoa e pedi para que ele declamasse algum poema do livro “Mensagem”.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong><span style="color:#800080;"><a href="http://nunopcustodio.blogspot.com/" target="_blank">NUNO</a></span>:</strong> Se eu gosto de Fernando pessoa? Em parte gosto. Noutra parte ele está também no expoente daquilo que eu fujo, ou seja, eu acho que ele é um poeta extraordinariamente lúcido e tem uma capacidade de por em versos. Precessões que eu já tive, mas nunca consegui verbalizar e, portanto, aí, sinto-me tocado, identificado e acho maravilhoso. Por exemplo, ele diz “Querer não é poder. Aquele que quer perde-se em querer e aquele que pode, quer antes de poder só depois de poder.” Isto é alguém que tem Deus com ele. Ele consegue de repente verbalizar: querer antes de poder só depois de poder. É uma obsessão muito difícil de verbalizar, mas é certa. Fernando Pessoa tem isto. Tem esta lucidez e tem uma beleza na sua escrita, mas depois também tem o lado psicótico, histérico. Pensamento, pensamento, pensamento. Eu,eu,eu. O que eu sinto é intelectualizar os pensamentos. Eu fujo disso. Já me enjoa. Então vou ler uma coisa que eu goste.</p>
<p><strong>NUNO DECLAMA TRECHO DO POEMA &#8220;TABACARIA&#8221;, DE ÁLVARO DE CAMPOS (ouça abaixo):</strong></p>
<p><em><object height="81" width="100%"><param name="wmode" value="transparent"><param name="movie" value="http://player.soundcloud.com/player.swf?url=http%3A%2F%2Fapi.soundcloud.com%2Ftracks%2F6771072&amp;g=1&amp;amp"></param><embed height="81" src="http://player.soundcloud.com/player.swf?url=http%3A%2F%2Fapi.soundcloud.com%2Ftracks%2F6771072&amp;g=1&amp;amp" type="application/x-shockwave-flash" width="100%"> </embed> </object><br />
</em></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/flaviamuniz.wordpress.com/218/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/flaviamuniz.wordpress.com/218/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/flaviamuniz.wordpress.com/218/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/flaviamuniz.wordpress.com/218/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/flaviamuniz.wordpress.com/218/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/flaviamuniz.wordpress.com/218/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/flaviamuniz.wordpress.com/218/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/flaviamuniz.wordpress.com/218/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/flaviamuniz.wordpress.com/218/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/flaviamuniz.wordpress.com/218/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/flaviamuniz.wordpress.com/218/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/flaviamuniz.wordpress.com/218/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/flaviamuniz.wordpress.com/218/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/flaviamuniz.wordpress.com/218/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=flaviamuniz.wordpress.com&amp;blog=9800770&amp;post=218&amp;subd=flaviamuniz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>TROCANDO IDEIA COM REBECA TOLMASQUIM</title>
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		<pubDate>Fri, 08 Oct 2010 15:54:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>flaviamuniz</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Em homenagem ao dia das crianças fiz questão de conversar com algum representante desta etapa da vida. A Rebeca é filha da minha professora de hebraico e desde que a conheci fui um encanto só! É uma menina de doze anos, personalidade forte e aquele jeito doce que as crianças tem sem precisar de açúcar. Rebeca Tolmasquim escreve, dança, faz teatro e tem opiniões para todos os assuntos. Ela terminou de escrever um livro, mantém o blog <span style="color:#ff6600;"><a href="http://superrebs.blogspot.com/" target="_blank">SUPER REBS</a> </span>e adora pesquisar! É uma curiosa nata! Os vídeos são imperdíveis!<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=flaviamuniz.wordpress.com&amp;blog=9800770&amp;post=183&amp;subd=flaviamuniz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><a href="http://flaviamuniz.files.wordpress.com/2010/10/rebs.jpg"><img class="size-full wp-image-184 aligncenter" title="Rebs" src="http://flaviamuniz.files.wordpress.com/2010/10/rebs.jpg?w=315" alt=""   /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Em homenagem ao dia das crianças fiz questão de conversar com algum representante desta etapa da vida. A Rebeca é filha da minha professora de hebraico e desde que a conheci fui um encanto só! É uma menina de doze anos, personalidade forte e aquele jeito doce que as crianças tem sem precisar de açúcar. Rebeca Tolmasquim escreve, dança, faz teatro e tem opiniões para todos os assuntos. Ela terminou de escrever um livro, mantém o blog <span style="color:#ff6600;"><a title="REBULIÇOS" href="http://rebulicos.blogspot.com/" target="_blank">REBULIÇOS</a> </span>e adora pesquisar! É uma curiosa nata! Os vídeos são imperdíveis!</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA</strong>: Fala pra mim, Rebeca: de que modo você se apresenta?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>REBECA</strong>: Ah&#8230; Como eu me apresento? Eu em geral, reparo que algumas pessoas, quando você as chama, elas respondem de um jeito. Então se eu chamo alguém, a pessoa fala sim; eu em geral falo oi. Então eu imagino que quando alguém me pergunte quem eu sou, eu devo falar: oi! Eu sou a Rebeca e aí eu me apresento falando quem eu sou e que eu sou uma pessoa bem feliz, assim: ah! E as coisas que eu quero fazer: que eu quero ser escritora, atriz&#8230; Em geral eu falo um pouquinho sobre mim.</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://flaviamuniz.wordpress.com/2010/10/08/trocando%c2%a0ideia%c2%a0com%c2%a0rebeca%c2%a0tolmasquim/"><img src="http://img.youtube.com/vi/7VpiZ4XJ6GM/2.jpg" alt="" /></a></span></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> Por que você achou que queria ser atriz? Percebeu que levava jeito? Foi na aula de teatro do colégio?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>REBECA: </strong>Decidi que queria ser atriz quando eu estava na segunda série. Eu tinha oito anos, eu acho. Teve uma apresentação na escola que era um livro <em>Morreu Tio Eurico Rubião Ficou Rico. </em>O principal era o Rubião e eu fiz o Rubião. Eu me lembro que na hora que falaram vamos ver quem vai fazer bem e eu substituí um menino. A professora falou assim: você que vai ficar com o papel do Rubião. E eu disse: ah! Tudo bem! E eu me lembro que depois da apresentação muita gente aplaudiu, muita gente veio me elogiar. E eu gostava muito de ficar brincando de algumas histórias. Aí eu pensei: deve ser isso mesmo e eu fui descobrindo que era isso que eu queria.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> Você podia contar aquela história do seu primeiro trabalho que você fez a narração daquele programa?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>REBECA:</strong> Ah! Tá! Eu tava na terceira série, eu já tinha dez anos! E o pai de uma amiga minha era diretor de um programa da TV Futura. Este diretor me indicou pra eu fazer uma locução. Eu fui. Não foi uma seleção muito grande, foi mais pra ver se indicação era boa mesmo. E então eu entrei numa cabine de som, que é um lugar escuro, só com um vidro e um microfone! E eu tinha que fazer perguntas pra instrumentistas da orquestra sinfônica jovem &#8211; no programa é a Maquineta. Eu não apareço, mas aparece a minha voz perguntando. Depois eu fiz uma outra vinheta pra esse mesmo programa chamado <em>Que bicho é </em>em que apareciam fotos de animais e eu fazia a voz deles. Então tinha o beija-flor &#8211; que é o animal mais rápido – aí a voz ficava muito rápida. Ou a aranha que tinha uma voz grossa. Só isso!</p>
<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://flaviamuniz.wordpress.com/2010/10/08/trocando%c2%a0ideia%c2%a0com%c2%a0rebeca%c2%a0tolmasquim/"><img src="http://img.youtube.com/vi/6FmLdY1l-S0/2.jpg" alt="" /></a></span>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> Quero pedir pra você ler uma poesia sua.</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://flaviamuniz.wordpress.com/2010/10/08/trocando%c2%a0ideia%c2%a0com%c2%a0rebeca%c2%a0tolmasquim/"><img src="http://img.youtube.com/vi/zFzDoT1FnVw/2.jpg" alt="" /></a></span></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> Você pode falar um pouco do livro que acabou de escrever ou ainda é segredo?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>REBECA:<a href="http://www.youtube.com/watch?v=jXrCj-ucMhU&amp;feature=player_embedded" target="_blank"> </a></strong>Não! Eu posso falar da história! Eu escrevi um livro agora que se chama <em>Até o céu. </em>É sobre uma garota toda extrovertida, impaciente e no meio do nada ela ficou silenciosa, meditando. Esta menina está indo viajar pra Ásia. Eles estão no aeroporto e parece que o Rio de Janeiro inteiro ia nesse avião , mas o avião foi cancelado. Um caos. Todo mundo desesperado. Então ela sentou no chão e começou a meditar. E de repente tava numa terra nova. Ela quer descobrir que lugar é aquele e começa a conversar com um maxixe. Ela está achando tudo muito estranho: as pessoas, as coisas, legumes falando – falando pra você: não me come! Tentando explicar pra ela, mas não podendo explicar o que que é aquela terra. Ela encontra um mago que diz assim: essa é a terra da liberdade. Na terra da liberdade você não é totalmente livre. Você se sente totalmente livre, mas você não é livre. Você só perde essa sensação de liberdade se você for injusto com alguém. E nessa terra tinha também tesouros &#8211; dois cálices: um com suco de laranja e outro com vinho. Se você bebesse um você voltava pra Terra normal, se você bebesse o outro você ficaria pra sempre na terra da liberdade, se você fizesse uma mistura você ia fazer tudo o que você quisesse. Tudo! Você poderia fazer tudo o que você quisesse! Sendo que ninguém ganancioso pode pegar nesses cálices. E a principal, que é a Liora, encontra uma menina que não é nem um pouco gananciosa e as duas saem em busca dos cálices.</p>
<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://flaviamuniz.wordpress.com/2010/10/08/trocando%c2%a0ideia%c2%a0com%c2%a0rebeca%c2%a0tolmasquim/"><img src="http://img.youtube.com/vi/jXrCj-ucMhU/2.jpg" alt="" /></a></span>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> Sua mãe é bem atuante em relação ao direito da criança e do adolescente. Você acaba acompanhando estas questões, né? Me conta: o que é ser criança e qual é a sua opinião sobre as injustiças sociais contra as crianças e os adolescentes?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>REBECA:</strong> Posso me revoltar?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA: </strong>Pode tudo! Você está na terra da liberdade!</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>REBECA:</strong> Bom, eu acho que criança é uma coisa muito parecida com adulto. E um dia eu tava pensando e acabei chegando a uma conclusão que criança é um adulto, só que não é tão preocupada com as coisas. A criança quer ser feliz! Toda hora tá brincando e o adulto não. O adulto está sempre procurando uma forma de viver melhor. Então essa é a diferença: os adultos são mais preocupados com as coisas. E o que era outra coisa mesmo?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> sobre as injustiças.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>REBECA:</strong> Ah! Muitos adultos acham que criança não tem sua opinião própria. Então várias vezes eu vou pra algum lugar e perguntam pros meus pais o que que eu acho, mas não perguntam o que que eu acho. Às vezes eu acho que as pessoas não confiam tanto nas crianças. É! Não confiam nem em criança, nem em adolescente. Não confiam mesmo!! E às vezes nem tanto respeito assim. Então eu acho que acaba tendo uma relação péssima, porque se a pessoa não confia na outra, se um adulto não confia numa criança, a criança ao confia no adulto! E ficam falando que as crianças são de um certo modo, mas cada criança tem um jeito, não é pra generalizar nenhuma criança. Generalizar não é uma coisa muito boa e que criança cada uma tem um jeito, cada uma é uma pessoa diferente e cada uma tem a opinião delas, não dos pais.</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://flaviamuniz.wordpress.com/2010/10/08/trocando%c2%a0ideia%c2%a0com%c2%a0rebeca%c2%a0tolmasquim/"><img src="http://img.youtube.com/vi/I4ZJpkQ61ys/2.jpg" alt="" /></a></span></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> De que jeito você aprendeu essas coisas? Você fica pensando sobre elas?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>REBECA:</strong> Eu? Eu tenho uma irmã e um irmão mais velhos e sou muito influenciada por eles. Eles falavam de alguma coisa, eu queria entender o que era. Eu ia pesquisar o que é isso, o que é aquilo e acabei sabendo coisas que muita gente da minha idade não sabia. E também faço parte de um movimento juvenil judaico que é socialista. Eu acho que foi lá que eu aprendi, mais ou menos, o que é respeito, o que é confiança&#8230; E acho que também tem muito de mim. Eu penso e sempre to querendo discutir esses assuntos. Sempre quero falar do que eu penso pra ver se o que eu pendo está, de um certo modo, certo. Eu sempre estou buscando conhecimento. Sempre to buscando debater. Eu leio e pesquiso muito.</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://flaviamuniz.wordpress.com/2010/10/08/trocando%c2%a0ideia%c2%a0com%c2%a0rebeca%c2%a0tolmasquim/"><img src="http://img.youtube.com/vi/gHFauP2Bbck/2.jpg" alt="" /></a></span></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> Você já leu a <span style="color:#ff6600;"><a href="http://www.cartadaterra.com.br/ctcriancas.htm" target="_blank">Carta da Terra</a></span>. É uma carta que abre os olhos das pessoas para a importância de construirmos um mundo de paz, respeito entre os povos etc. Estou falando isso, pois hoje se fala muito em globalização e sustentabilidade. Qual é sua opinião sobre isso?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>REBECA:</strong> Em relação a natureza, tem algumas coisas que me influenciam muito: propagandas sobre o meio ambiente, tem muita coisa sobre a conscientização e eu tomo muito cuidado, mas não exagero. Então o meu banho diminuiu de tempo, uso papel reciclado. Eu tento fazer o que eu passo, que tá dentro do que eu posso. E sobre isso da globalização&#8230; Eu acho que as culturas são diferentes, mas que todos deveriam se respeitar, todos deveriam viver bem, aliás estão todos dividindo o meu espaço – pode ser dividido em país, em continente, mas está tudo mundo no mesmo espaço. E tem que haver uma relação muito boa entre cada povo, entre cada nação, entre cada cultura e mesmo de um país. E pra viver junto tem que ter respeito, confiança.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA</strong>: De que jeito você imagina o mundo quando estiver com 30 anos?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>REBECA:</strong> Eu sempre quis ter uma máquina de escrever verde, um telefone de disco verde, um fusca verde e um all star verde. O all star verde eu já tenho! (risos) Mas eu me imagino com trinta anos dirigindo um fusca com uma máquina de escrever, um telefone&#8230; Eu vivo pensando como eu vou ser no futuro e imagino que não vou ser tão diferente&#8230; Eu só me imagino com o fusca, a máquina de escrever. São bem meus sonhos. Mas eu imagino que as pessoas seriam bem mais conscientes de tudo. Então eu moraria em Santa Teresa e a minha casa seria cheia de plantas. Eu acho que as pessoas teriam mais esse hábito de morar em casa. Eu acho que as pessoas não estariam só pensando em evoluir Elas estariam num momento mais sossegado.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA:</strong> Quer falar mais alguma coisa?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>REBECA:</strong> Do blog! Eu tenho um blog se chama <a title="REBULIÇOS" href="http://rebulicos.blogspot.com/" target="_blank">REBULIÇOS</a>. Tomara que todos vocês entrem lá pra ver textos meus e histórias minhas. É isso!</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/flaviamuniz.wordpress.com/183/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/flaviamuniz.wordpress.com/183/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/flaviamuniz.wordpress.com/183/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/flaviamuniz.wordpress.com/183/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/flaviamuniz.wordpress.com/183/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/flaviamuniz.wordpress.com/183/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/flaviamuniz.wordpress.com/183/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/flaviamuniz.wordpress.com/183/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/flaviamuniz.wordpress.com/183/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/flaviamuniz.wordpress.com/183/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/flaviamuniz.wordpress.com/183/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/flaviamuniz.wordpress.com/183/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/flaviamuniz.wordpress.com/183/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/flaviamuniz.wordpress.com/183/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=flaviamuniz.wordpress.com&amp;blog=9800770&amp;post=183&amp;subd=flaviamuniz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>TROCANDO IDEIA COM PAULO BLANK</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Aug 2010 06:10:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>flaviamuniz</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;"><a href="http://flaviamuniz.files.wordpress.com/2010/08/paulo-blank-no-escritorio.jpg"></a><a href="http://flaviamuniz.files.wordpress.com/2010/08/paulo-blank-no-escritorio1.jpg"><img class="size-full wp-image-180 aligncenter" src="http://flaviamuniz.files.wordpress.com/2010/08/paulo-blank-no-escritorio1.jpg?w=315" alt=""   /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Durante a pesquisa para meu próximo livro eu tive um estalo: o alfabeto vinha dali do Oriente Médio e eu precisava estudar hebraico. Não é novidade que o alfabeto que conhecemos hoje é uma herança dos fenícios. Nas minhas andanças com o “<a href="http://www.youtube.com/watch?v=byp9DGcbi5c" target="_blank"><em>Quero ver Verdejar</em></a>”, descobri o Jayme Fucs Bar, fundador do <a href="http://judaismohumanista.ning.com/" target="_blank">Judaísmo Humanista</a>. Foi lá que conheci o Paulo. Paulo Blank é carioca da gema, descendente de Polonês, psicanalista, Doutor em Comunicação e Cultura pela ECO-UFRJ, autor de vários estudos sobre pensamento judaico. Tem dois livros publicados: “<em>Cabala – o mistério dos casais</em>” e “<em>O tal do Judeu</em>”. Paulo Blank tem um projeto que utiliza como ponto de partida as memórias de sua mãe. Por ironia marcamos de conversar no dia seis de agosto, dia dos 65 anos da bomba de Hiroshima. Foram duas horas de conversa na sinagoga para judeus baixinhos, na casa do Paulo. Foi tão interessante  o papo, que deu trabalho editar e selecionar o que ficaria de fora.  É possível ver em vídeo alguns trechos. Paulo Blank propõe pensar o judaísmo e diz  a determinada hora: “Nada nesse mundo é sagrado, nem a terra de Israel. Na raiz do pensamento judaico você encontra ideias libertárias. Então eu posso ser judeu, ser brasileiro, amar profundamente Israel, e não concordar com o governo Israelense”. Paulo Blank está sendo!</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA</strong>: Paulo, eu li seu artigo no livro “<em>Memórias e cinzas (vozes do silêncio)</em>”, onde você fala um pouco das suas memórias de infância e as costura com as memórias que não te pertenceram (e isso é tão bonito!). Mas me conta: quem é o Paulo Blank? Como você se diz?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>PAULO BLANK</strong>: (Risos) Paulo Blank é essa história. É o seguinte: eu digo que a pergunta certa na pós-modernidade é:  qual é o Paulo Blank? Ou melhor, qual Paulo Blank é? Aquilo ali é um projeto que estou trabalhando à memória da minha mãe. A ideia é exatamente essa: eu escrevo as memórias dela. A gente morava na Praça XI, eu nasci na Rua de Santana e me criei lá até os 11 anos de idade. De lá a gente foi para Israel, onde eu fiquei até os 16 anos mais ou menos. A minha mãe era prestamista: vendia roupas&#8230; Era a profissão que existia&#8230; Era uma profissão dos judeus, dos turcos, imigrados. Ela chegou ao Brasil em 39. Você vê que eu já to falando a partir da minha mãe. Eu a acompanhava. Éramos pobres, não tínhamos empregada, ela me levava para trabalhar com ela e falava o tempo inteiro. Evidentemente que isso tudo é uma narrativa. Como tudo na pós-modernidade é uma questão de narrativa, isso é uma das narrativas possíveis da minha vida e da vida dela. Aí eu tive esse insight: de quanto nós somos constituídos pelas memórias dos outros. E ela falava muito da Polônia, ela saiu de lá antes da guerra. E eu resolvi fazer uma viagem na trilha das memórias dela. A Polônia é uma coisa muito traumática. Eles vivem de fazer turismo em cima dos judeus que já não existem mais e que foram trucidados pelos nazistas, com a ajuda dos poloneses, que eram anti-semitas terríveis. Eu até tentei pedir meu passaporte, mas eles nunca me responderam.  Lembrei daquele filme: “Passaporte Húngaro”. Então esse é um dos Paulo Blank possíveis.</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://flaviamuniz.wordpress.com/2010/08/08/trocando-ideia-com-paulo-blank/"><img src="http://img.youtube.com/vi/JtRUkZPev4Q/2.jpg" alt="" /></a></span></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA</strong>:  Li no grupo Judaísmo Humanista aquele texto à memória de seu avô, onde você fala que Emmanuel Lévinas percebia o Hitlerismo como um projeto que negava aquilo que o mundo ocidental construiu como valores humanistas. O que acha mais importante no pensamento do Lévinas, nesse sentido?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>PAULO BLANK</strong>: Esse texto fala sobre essa filosofia do Hitlerismo. É mais fácil para toda a civilização ocidental considerar o Hitlerismo como um episódio de loucura. Não um episódio que está calcado no Senhor Hitler, mas que está calcado numa conjunção de valores, onde o econômico, eu acho que é menor deles.  Lévinas  nos mostra um texto de 1933,  quando foi estudar com o Heidegger e sacou onde é que o Heidegger ia parar, ou seja, no nazismo.  Viu o nazismo como um pensamento. Havia pessoas fundamentando a filosofia do nazismo. 1933 foi o ano em que Hitler chegou ao poder, diga-se de passagem, numa eleição democrática. É uma coisa que todo mundo esquece, pensa que foi um golpe de estado. Numa Alemanha conturbada, com partido comunista, que seria o oposto. Nesse texto da sua pergunta, o Lévinas coloca que o princípio da filosofia do nazismo se dá através do olhar pré-determinado. Uma pré-determinação sanguinea. Não há possibilidade de escolha. E a  capacidade de escolher determina possibilidades diferentes de olhar pro ser humano. Uma das marcas do humano é a capacidade de escolha.</p>

<a href='http://flaviamuniz.wordpress.com/2010/08/08/trocando-ideia-com-paulo-blank/paulo-blank-um-leitor-diferente/' title='PAULO BLANK - UM LEITOR DIFERENTE'><img data-attachment-id='161' data-orig-size='320,463' data-liked='0'width="103" height="150" src="http://flaviamuniz.files.wordpress.com/2010/08/paulo-blank-um-leitor-diferente.jpg?w=103&#038;h=150" class="attachment-thumbnail" alt="PAULO BLANK - UM LEITOR DIFERENTE" title="PAULO BLANK - UM LEITOR DIFERENTE" /></a>
<a href='http://flaviamuniz.wordpress.com/2010/08/08/trocando-ideia-com-paulo-blank/paulo-blank2/' title='PAULO BLANK2'><img data-attachment-id='162' data-orig-size='378,278' data-liked='0'width="150" height="110" src="http://flaviamuniz.files.wordpress.com/2010/08/paulo-blank2.jpg?w=150&#038;h=110" class="attachment-thumbnail" alt="PAULO BLANK2" title="PAULO BLANK2" /></a>
<a href='http://flaviamuniz.wordpress.com/2010/08/08/trocando-ideia-com-paulo-blank/attachment/180/' title='paulo-blank-no-escritorio1'><img data-attachment-id='180' data-orig-size='1552,1530' data-liked='0'width="150" height="147" src="http://flaviamuniz.files.wordpress.com/2010/08/paulo-blank-no-escritorio1.jpg?w=150&#038;h=147" class="attachment-thumbnail" alt="paulo-blank-no-escritorio1" title="paulo-blank-no-escritorio1" /></a>

<p style="text-align:justify;"><strong>Paulo Blank – um leitor diferente</strong>. Em sua  viagem à Polônia com os livro do Lévinas e do Safranski. &#8220;O que eles disseram é que a filosofia do Hitlerismo está calcada numa conjunção de valores&#8221;. Paulo pediu para acrescentar estas fotos e disse: &#8220;Como falo do livro que “levei para passear na Europa” seria bacana compartilhar na entrevista. O livro em hebraico é sobre o Lévinas e fica bonito pelas letras hebraicas&#8230; O Lévinas passou a guerra preso e nunca aceitou pisar novamente naquelas bandas”.</p>
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<p style="text-align:justify;"><span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://flaviamuniz.wordpress.com/2010/08/08/trocando-ideia-com-paulo-blank/"><img src="http://img.youtube.com/vi/jhPxjOb7jyU/2.jpg" alt="" /></a></span></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA</strong>:  Nesse mesmo texto citado acima (por sinal muito bom) você cita Freud: HERDENTIER (animal de rebanho) e HORDENTIER (animal de horda). “Hordas são o ideal da vida humana. Rebanhos são a realização da vida desumana. Mas somos todos um pouco destas duas tendências”. Que dimensão tem isso? Pode explicar melhor?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>PAULO BLANK</strong>: A frase em alemão é curiosa. No livro “A psicologia das massas e analises do eu” também está em Alemão, por isso que eu preservei. O Freud fala isso, curiosamente em um trabalho de 39, então já tem a coisa do nazismo no meio. Hoje os estudiosos dizem que ele estava falando de ciência, da relação entre o indivíduo e a massa, o grupo. E ele termina o texto com essa afirmação: o homem não é um animal de rebanho, e sim animal de horda. E o que é a horda? O Elias Canetti, que também é maravilhoso, escreveu um livro chamado “Massa e poder”, esse livro é extraordinário, onde ele descreve vários tipos de horda: A ideia de multiplicidade se inscreve muito mais, em termos humanos, na ideia de horda que na ideia de rebanho. Porque rebanho é aquela ideia exatamente como o nazismo: uma ideia de unidade onde não há diversidade. Na ideia da horda tem uma imagem muito forte que é a horda de caça – pensa-se que era assim uma das organizações mais antigas do ser humano, mais primitivas no tempo. Os humanos se juntam para caçar, executam uma tarefa juntos. O que junta eles? A tarefa. Caçam, voltam, fazem a repartição da caça, se juntam ao redor do fogo e comem aquela caça. Eles tem na frente deles e no centro o fogo e estão de costas para a escuridão. Quando terminam a tarefa quem quiser pode ir embora para a escuridão. Vai embora para a sua individualidade. E essa ideia de uma multiplicidade que se junta, e se separa e volta à individualidade, que não se perde quando está em grupo, não se transforma num rebanho, se preserva, faz o que tem que fazer. É uma metáfora, que eu acho muito rica, dessa ideia de um ser humano que exerce essa multiplicidade. Essa possibilidade de estar num lugar, estar em outro, estar junto, estar fora e ele não ser determinado por nada, além da vontade dele. Essa é a ideia da horda primitiva. É uma metáfora libertária. Não é uma metáfora aprisionante como a do rebanho.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA</strong>:  Eu entendi dessa forma: que poderíamos entrar em todas as estruturas e sair delas. Isso seria a horda.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>PAULO BLANK</strong>: Exatamente. Você entra e sai, sai e entra. Você tem essa liberdade de locomoção. Liberdade de escolha. No hitlerismo ou em outras ditaduras religiosas, como hoje a gente está assistindo no Irã, você não tem essa liberdade. Ou você está dentro ou é excomungado, é morto. Os partidos ideologicamente unitários como foram os partidos comunistas&#8230; É a mesma coisa, né? A condição humana está sempre nessa tensão.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA</strong>:  Teve outra frase que me deixou de olhos arregalados:</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>PAULO BLANK</strong>: words, words, words, nothing but words…</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA</strong>:(Risos)  “Triunfo não quer dizer aquilo que não se manifesta. Quer dizer, controlo e busco superar o que não quero que se manifeste no projeto humano que desejo construir”. Isso é profundo demais!!! Como podemos construir uma humanidade estruturada na cooperação e não na competição?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>PAULO BLANK</strong>: O tempo inteiro eu quero trabalhar com uma ideia de multiplicidade. Não só de um grupo. Eu também sou um. Guattari, na década de 70, trabalhava a ideia de grupelhos. Cada um de nós é um grupo. Sobre-determinado por várias tendências, camadas culturais, issos e aquilos&#8230; Eu nunca me construo como um ser puro, com uma tendência só. Nós estamos sempre dentro de uma tensão interior. Entre várias tendências, entre opostos, paradoxos.  Henri Atlan,  pensador-biólogo que eu gosto muito, dizia: entre o cristal e a fumaça. A cristalização é fixa, sem movimento e a fumaça é cheia de movimento, mas é dispersa. É nesse entre, que o ser humano se move.  Quando eu digo essa frase, é um projeto humano que eu quero construir, mas que nunca se constrói. Que o oposto está sempre presente em mim. Não há bom ou mal. Há forças interiores: mentais, emocionais, corporais  em permanente tensão. Ora se articulam de um jeito, ora se desarticulam e se rearticulam do outro. Onde a ideia de ruído é uma ideia de informação que entra nesse sistema para desorganizá-lo e faz com que ele se reorganize de forma diferente. E assim a vida caminha. Isso eu aprendi com Henri Atlan. Tem esse livro muito bonito chamado “Entre o cristal e a fumaça”.  E o ruído é tudo aquilo que é outro. O outro é um ruído, que me obriga a  me desorganizar, e me organizar em outro patamar. E agora, como podemos nos organizar na cooperação e não na competição? Eu acho que não podemos. Eu acho que é só um projeto.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA</strong>:  Utópico?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>PAULO BLANK</strong>: Não. Se a gente pensa numa multiplicidade, a gente também pode pensar em tribos, a gente pode pensar em diferenças convivendo ao mesmo tempo. É o que a gente vive. Acho que sempre houve isso, mas nunca tão explicitado como na tal da pós-modernidade. Resolvi para mim a questão da utopia com uma frase de um rabino-pensador-filósofo, Maimonides, lá do décimo primeiro século, vivia no Egito&#8230; Ele diz uma frase que é um paradoxo genial: “Todas as previsões dos profetas são verdadeiras. Não porque se realizaram, mas por que mereciam se realizar”.  Isso é o que legitima a ideia da utopia. É uma coisa que você trabalha por ela. Não quer dizer que você venha a vê-la se realizar na totalidade. Em termos parciais ela se realiza e ela merecia se realizar. As experiências do século passado de construir sociedades cooperativas pela força fracassaram. A única mais bem sucedida que dizem, foi o Kibutz, mas que também acabou entrando pelo cano, na medida do neo-liberalismo, que venceu também Israel. Criava um outro tipo de humano, uma outra dimensão. Mesmo dentro dos Kibutz as pessoas não viviam a mil maravilhas. Tinha competição. A ideia é conviver com essa multiplicidade toda. Não é pensar um ser humano que não tenha essas tendências. Eu acho que a gente está sempre brigando. A gente pode é optar brigar contra elas. Ou não. Ou valorizá-las em parte, valorizá-las em algum momento. Mas acho que há uma tendência de dominação que é do bicho homem. A cultura é que acaba domando o ser humano. A pergunta é QUAL É O TIPO DE CULTURA QUE A GENTE VAI CONSTRUIR, NÉ? O Judaísmo Humanista é um projeto que visa construir aquilo que é humano. Humano como projeto. Um vir a sendo. E de propósito digo vir a sendo e não vir a ser. O ser já é totalizante. Sendo remete ao projeto, ao movimento. Isso a gente vai encontrar muito no Judaísmo. Humano como projeto, e projeto sempre como inacabado. Nunca é uma idealização do humano. Do humano que caiu. Eu acho que o cristianismo nos trouxe muito essa ideia da queda de Adão. Há possibilidade de vê-lo dentro do Judaísmo e de não vê-lo dentro do Judaísmo. Há outras ideias dentro do Judaísmo que não colocariam como ideia de queda. Dentro da Cabalá, a mística Judaica,  o ser humano é criado a imagem de Deus. E de que Deus é a imagem? A imagem de um Deus enquanto forças. Uma das manifestações do divino. São forças interiores. Os mesmo atributos que o homem dá a Deus na sua revelação, são os atributos de energias, de forças, que se compõem numa coisa chamada “árvore da vida”, que é puro movimento, o tempo inteiro.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA</strong>:  É dinâmico.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>PAULO BLANK</strong>: É dinâmico. E dentro dessa dinâmica há forças que se vencem, tendem para uma coisa chamada mal. Se as outras vencem, por momentos, tendem para uma coisa chamada bem.  E essas forças também estão presentes no ser humano. Então ele é feito a imagem dessas forças divinas. Nesse sentido você pode dispensar a religião e ficar com o modelo. Um modelo fantástico. Um modelo extremamente dinâmico do ser humano, e por ser dinâmico não é estático, não fecha.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA</strong>:  E como é ser Judeu , hoje, no meio de todo o conflito, onde é impossível concordar com as decisões do governo de Israel?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>PAULO BLANK</strong>: Vou te responder brincando bem no estilo do humor judaico. Ser judeu no mundo hoje é como sempre foi. É muito complicado. Tem uma expressão em yiddish, que é um dialeto judaico-europeu, no qual eu fui criado.  É muito difícil ser judeu. Não é diferente hoje do que sempre foi. Tem outras complicações. Acredito que a sua pergunta tenha a ver com manter-se dentro de uma tradição. A partir do século XIX era possível encontrar pessoas, que se definiam como judeus sem estarem religiosamente definidas como judeus. E querendo manter o Judaísmo enquanto um valor cultural, enquanto um valor afetivo, enquanto um valor de sapiência. Que eu acho que é uma dimensão que precisa ser recuperada, inclusive, a da sapiência.  Eu acho engraçado quando as pessoas se dizem budistas por causa da sabedoria budista. O budismo não é só uma sabedoria, é uma religião também, é um todo&#8230; Os meus mestres eram rabinos. Ao invés de contar histórias de mestres zen-budistas eu conto histórias de rabinos. São coisas diferentes. E eu digo diferente, na medida em que é calcada numa questão que é uma invenção judaica: o outro. É uma invenção judaica daqueles malucos andando no meio do deserto. É uma ideia que faz Lévinas explorar a ética como filosofia primeira, e aí eu acrescento, modestamente, a religião como ética primeira. É através da religião judaica, dos mandamentos mosaicos, se é que Moisés existiu, mas isso não importa. O que importa é a metáfora, o discurso, que instituiu naquele mundo a ideia de um outro, que não era o inimigo. Era um outro por quem eu devia me preocupar. E isso você lê o texto bíblico e está ali esparramado o tempo inteiro. Com isso podemos dizer que o outro é uma invenção. Como esse outro vem através de um discurso religioso, é Deus que está ditando isso, a gente pode dizer que é uma transcendência. E Lévinas vai trazer a ideia do outro, como transcendência. Não é uma transcendência divina. O outro é sempre uma transcendência. Você está sempre além da minha possibilidade de compreender, de redigir, de controlar, e uma série de outros pensamentos. A ideia do rosto, da face, do encontro, levando essa ideia onde toda essa transcendência se humaniza na imanência. No homem, no humano. De qualquer forma é curioso pensar numa ética que é divina. Numa ética que vem dos céus. Uma ética que não tem autoria humana. Então faz pensar que essas pessoas que tiveram essa ideia foram geniais. Que a ética é além do humano. E você pensar que ela é até mesmo além de Deus. Naquela passagem bíblica que Deus fala para Abraão que vai destruir Sodoma e Gomorra, e Abrão contesta Deus e pergunta: o juiz de toda a Terra não praticará o direito? Isso me fez pensar que há uma ética que está além de Deus mesmo, que é o direito, ou a justiça. E ele vai negociando com Deus até que a voz de Deus(&#8230;) – na tradição judaica Deus é uma teofania, uma revelação vocal. Não existe imagem. E eles chegam a um acordo, que se houver dez justos a cidade não seria destruída. No judaísmo a leitura não é acabada. Não é ao pé da letra, o que sempre permite a subversão do texto. É a desleitura. O leitor forte é aquele que deslê o texto. O texto nunca se fecha. Haveria uma lei que rege o universo que estaria acima de Deus. No judaísmo são muitas as revelações e cada uma tem um nome. Deus vai se revelando ao longo da Torá através de seus nomes. Nessa revelação ele diz que há uma qualidade na justiça que é superior a tudo isso. Deus se contrai no seu eu e diz a Abraão: vamos ver se tem dez justos. Acaba que não tem, a cidade é destruída e algumas pessoas são salvas.  Funda a ideia de que o diálogo é uma negociação, e a negociação é sempre um esforço. Tem um texto onde eu falo que o diálogo é uma violência. Onde eu violento a mim mesmo e faço uma contração e me permito ouvir o outro. Deve ser uma contração mútua para construir um espaço intermediário. Mas ser judeu é essa possibilidade de poder pensar através de categorias judaicas do pensamento. Parece intelectual, mas é isso o que estamos fazendo agora. São ferramentas que me permitem pensar.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA</strong>:  Na sua visão a justiça é uma virtude?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>PAULO BLANK</strong>: Na tradição judaica a justiça é a virtude.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA</strong>:  Na sua interpretação as virtudes estariam acima desse Deus?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>PAULO BLANK</strong>: Tem uma passagem bíblica que diz: “Justiça, justiça perseguirás”. Os mestres perguntaram: por que duas vezes justiça? Na medida em que é um texto santo, nada está por acaso. E compete ao homem então decifrar os mistérios. E os mestres chegaram a conclusão que tem que perseguir a justiça com justiça. O que eu entendo disso é um sem fim que se inaugura. Justiça, com justiça, com justiça&#8230;A ideia da justiça como virtude é uma ideia de justiça como questionamento. Não para saber que um dia serei virtuoso. O que é justiça no hebraico?  A caridade não existe enquanto palavra em hebraico. Quando você dá algo que é seu você não está fazendo nada demais. Somente praticando justiça. É uma obrigação. A ideia da virtude está ligada a ideia da caridade. Eu sou um ser virtuoso. Quando você vai a raiz da construção judaica, você não tem virtuoso. Eu te disse que é uma virtude, mas agora tenho que te dizer que não é uma virtude. É uma obrigação. A justiça é possibilidade de me preocupar pelo outro. O Lévinas repete sempre nos texto para você se preocupar com o órfão, com a viúva e com o estrangeiro. Que são imagens dos desprotegidos. A justiça é para eles. A Terra é dada por empréstimo. Essa é ideia de uma ética transcendental. É a própria criação. Deus cria o homem a imagem e semelhança dele e o homem se cria na relação com os outros homens repetindo essa criação divina, sempre se colocando em direção ao outro. Então, justiça virtude?Não. Obrigação. Boa essa pergunta, hein? O bom desse papo é que me faz pensar em coisas que eu nunca pensei.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA</strong>: Só uma curiosidade: em Hebraico, Deus o que é?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>PAULO BLANK</strong>: Deus não é. Essa pergunta é boa! Há múltiplas revelações dos nomes divinos. A última delas é quando Moisés está no deserto e vê uma árvore que diz que ali é a Terra Santa. Uma voz diz para ele voltar ao Egito e falar com o faraó. Moisés pergunta: em nome de quem falarei?  E a voz diz: “אני יהיה מה יהיה”, serei aquilo que serei. Vá ao faraó e diga que serei o que serei te enviou a ele. Isso é uma loucura! Pois o que é que faz a bíblia católica? Traduz do grego, que traduz pro latim. E a resposta é: sou o que sou. E isto é toda a diferença. No hebraico não existe o verbo ser no presente do indicativo. Ninguém é. Em termos lingüísticos ninguém é. O ocidente é um erro de tradução. Pois traduz o sendo como ser. E o ser é a ideia que empata. A ideia do ser chega ao nazismo. O ser é totalizante. O sendo é que é a revelação divina e não tem forma, não tem nome, não tem nada. Mas é um pensamento abstrato.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FLÁVIA</strong>: “Paz primeiro, política depois”.  A presidência da República brasileira doou vinte e cinco milhões de reais às autoridades palestinas. Estamos às vésperas de decidir os próximos 4 anos do Brasil.  O que é de extrema importância para o país neste momento?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>PAULO BLANK</strong>:  Paz quer dizer reconhecimento do outro. Se não há reconhecimento do outro, há negociatas. É aí que entra a política. Mas se a política vem depois do reconhecimento do outro,  eu tenho a possibilidade de que se imponha algum tipo de controle a essa negociata. É o que o PT fez depois que assumiu o poder. Eu fui de esquerda a vida inteira. Eu tenho abominação de manipulação da massa. E o discurso petista entrou por aí. O Lula deu continuidade ao projeto. Há um projeto Fernando Henrique Cardoso, e isso foi muito inteligente da parte dele. Ele deu um golpe no PT. Mas no sentido ético devia ter ido por outro caminho. Essa imposição da Dilma é uma vergonha. As mulheres todas deveriam votar contra ela, pois é uma repetição do imaginário popular de um sistema patriarcal, onde um homem coloca uma mulher ali pra substituí-lo. E quer colocar uma mulher que não tem expressão. E mexendo com o imaginário de que é o homem que manda.  Nesse momento eu tô muito preocupado, pois nós estamos vivendo uma ditadura light. Como tudo mudou na pós-modernidade, a ditadura também vai mudar. Não é preciso uma ditadura iraniana. Penso que há um projeto de nunca mais sair do poder. E eu sei de gente que participou de reuniões, onde o PT oferece apoio financeiro a partidos estrangeiros que ele escolhe (partidos de referência de esquerda), para que eles aprendam com o PT como tomar o poder. O PT se transforma no modelo para União Soviética. Nós temos a resposta pro socialismo. E eu não posso compactuar com nada que soe como dominação das mentes: a manipulação. Muitos amigos intelectuais me criticam por isso, talvez por que passaram a receber melhores salários na universidade&#8230; Meu voto evidentemente, não será para a senhora Dilma. Quanto a questão Palestina eu acho que faz parte dessa manipulação toda. Manipulação no sentido do Brasil conquistar um lugar de grande potência, ótimo que faça isso, mas não deve ser por aí. Pessoas que lutaram contra a ditadura e depois passam a apoiar ditaduras? Aí a conta não fecha. Eu acho que o que a gente precisa agora é o programa original do PT.  Então é isso aí. A ética continua sendo anterior a política. Ética primeiro, política depois. Paz primeiro, política depois. A questão da ética deve ser anterior a política.</p>
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		<title>TROCANDO IDEIA COM RENATA LARA</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Apr 2010 20:56:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>flaviamuniz</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://flaviamuniz.files.wordpress.com/2010/04/renata11.jpg"><img class="alignright size-large wp-image-77" title="Renata Lara" src="http://flaviamuniz.files.wordpress.com/2010/04/renata11.jpg?w=1024&#038;h=667" alt="" width="1024" height="667" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Esta é a terceira entrevista do “Trocando ideia” e eu estava em busca de uma figura feminina para conversar. Esta semana de Abril tem muitas datas comemorativas mas acho que o dia da Terra resume bem o ponto x desta entrevista. Renata Lara é uma das coordenadoras de um projeto pioneiro no Rio de Janeiro: “Bairro Vivo- Uma Evolução Verde”, que visa transformar o Grajaú em um bairro verde e sustentável. Criou a <a href="http://www.casaculturalanitcha.com.br/page000.aspx" target="_blank"><span style="color:#993366;">Casa Cultural Anitcha </span></a>que vem aglutinando moradores em torno de uma proposta simples: desapegar-se de antigos paradigmas. Para entrar neste universo falamos sobre economia solidária, parcerias, sonhos, futuro, cidadania planetária, alimentação viva e o projeto “Cidades em transição”. O ponto de vista da Renata afirma e relembra o cuidado que devemos ter conosco e a nossa importância como células vivas deste grande organismo que é o Planeta Terra.  No Mês que vimos a chuva colocar a cidade em xeque-mate e as pessoas no mundo inteiro estão se manifestando contra a construção da hidroelétrica de Belo Monte, percebemos que a escolha está em nossas mãos!</p>
<p style="text-align:justify;">FLÁVIA: Fale um pouco sobre sua formação e como surgiu a <a href="http://www.casaculturalanitcha.com.br/page000.aspx" target="_blank"><span style="color:#993366;">Casa Cultural Anitcha</span></a>.</p>
<p style="text-align:justify;">RENATA: Sou uma aquariana com ascendente em gêmeos. Sempre fiz de tudo: quando era pequena fazia papel de carta, chocolate, bijuteria e vendia no colégio. Aos 15 anos resolvi ser modelo e acabei indo pro Japão. Por viver no mundo da moda e por influência de minha avó que trabalhava com alta costura, interessei-me por ser estilista. Vendia minha produção em feiras como o Mercado Mundo Mix e Babilônia Feira Hype. Mudei de área novamente e há 16 anos sou produtora e coordenadora de eventos. Quando minha filha nasceu comecei a questionar minha qualidade de vida e que valores gostaria de passar para ela através de meu exemplo. Retornei ao Grajaú, bairro onde nasci e passei minha infância, resgatei antigos valores, reencontrei velhos amigos, entrei em contato com a natureza&#8230; Dois anos depois juntei-me a um grupo de amigos e criamos a <a href="http://www.casaculturalanitcha.com.br/page000.aspx" target="_blank"><span style="color:#993366;">Casa Cultural Anitcha</span></a>.</p>
<p style="text-align:justify;">FLÁVIA: O que significa Anitcha?</p>
<p style="text-align:justify;">RENATA: Há 10 anos pratico meditação Vipassana(uma das técnicas mais antigas de meditação da Índia) Vipassana significa ver as coisas como realmente são,). O nome da casa vem deste ensinamento. Anitcha representa a fonética da palavra<em> anicca</em>, que traduz a idéia de impermanência. Tudo está sempre mudando!</p>
<p style="text-align:justify;">FLÁVIA:</p>
<p style="text-align:justify;">Percebo que você é uma multiplicadora da idéia central da Agenda 21: “pensar globalmente e agir localmente”. O que são os projetos “Bairro Vivo” e “Desapegue-se”?</p>
<p style="text-align:justify;">RENATA: As idéias do Bairro Vivo, principal projeto da <a href="http://www.casaculturalanitcha.com.br/page000.aspx" target="_blank"><span style="color:#993366;">Casa Cultural Anitcha</span> </a>, englobam o conceito de consumo consciente, economia solidária, alimentação saudável, horticultura caseira&#8230; Primamos pela formação de rede no bairro, valorização da família e dos mais velhos, alimentação saudável e a mudança de dentro para fora. No final de 2008 organizamos o primeiro “Desapegue-se”, uma feira de trocas baseada nos princípios da economia solidária. Logo surgiu nossa parceria com o projeto <a href="http://www4.ensp.fiocruz.br/terrapia/" target="_blank"><span style="color:#993366;">Terrapia</span></a> e iniciamos as oficinas de alimentação viva. Isso tudo gerou uma grande transformação na minha vida. Tudo o que coloco em prática na casa já experenciei no meu corpo.  A agenda 21 é maravilhosa mas quando conheci o projeto“Cidades em transição” (Transition tonw) eu achei mais prático.</p>
<p style="text-align:justify;">FLÁVIA: O que é o “Cidades em transição” e como conheceu o “<a href="http://www.terrauna.org.br/gaia/gaiario2010.html" target="_blank"><span style="color:#993366;">Educação Gaia</span></a>”?</p>
<p style="text-align:justify;">RENATA: “Cidades em Transição ” ou “Transition Towns” é um movimento mundial que vem transformar as cidades em ambientes mais sustentáveis, menos dependentes do petróleo e mais integrados à natureza. Petrópolis, Laranjeiras/Cosme Velho e Grajaú são lugares que estão seguindo os 12 passos deste movimento. Conheci o “Cidades em transição” no curso “<a href="http://www.terrauna.org.br/gaia/gaiario2010.html" target="_blank"><span style="color:#993366;">Educação Gaia</span></a>”(design em sustentabilidade). Fiz a formação durante cinco meses e posso dizer que foi um curso que abriu meus horizontes e mudou minha visão de mundo. Simplesmente maravilhoso!</p>
<p style="text-align:justify;">FLÁVIA: Esta semana mesmo saiu um artigo do <a href="http://www.ibase.br/modules.php?name=Conteudo&amp;file=index&amp;pa=showpage&amp;pid=2854" target="_blank"><span style="color:#993366;">Cândido Grzybowski</span></a>, no Boletim do Ibase onde ele fala sobre o estilo de vida da nossa civilização e questiona: “Como conciliar uma agenda de justiça social e justiça ambiental? Eis a grande questão para a cidadania e a democracia”. Um dos objetivos da Agenda 21 no que diz respeito ao combate a pobreza é: “Oferecer urgentemente a todas as pessoas a oportunidade de ganhar a vida de forma sustentável”.</p>
<p style="text-align:justify;">RENATA:  É&#8230; Vivemos hoje numa corporocracia, onde as grandes corporações comandam tudo. O homem  continua com a mesma velha visão de que ele é o centro de tudo! Corta todas as árvores, polui o ar, mata a própria espécie e, ainda assim, se acha rico!!!  Concordo com a visão de Leonardo Boff  que diz que os limites do Capital são os limites da Terra. Um dia a gente vai ver que não podemos comer dinheiro! A economia solidária traz essa nova visão de mundo, do dinheiro e do poder. Com o projeto “Desapegue-se” queremos mostrar que uma outra forma de economia baseada na cultura da abundância e da cooperação é possível. É muito bom você se sentir rico pelo que é e não pelo que tem! Você sabia que a palavra Ecologia e Economia são bem parecidas nas suas raízes? Ecologia significa cuidar da casa e economia, administrar a casa. Enquanto não soubermos cuidar e administrar nossa principal casa, nosso corpo e mente, não chegaremos a nenhum lugar. Não dá para falar em transformação externa sem haver a interna. Há uma nova consciência planetária nascendo!</p>
<p style="text-align:justify;">FLÁVIA:  Gosto tanto de palavra e não havia parado pra pensar nisso&#8230; E por falar em economia queria que você falasse da desigualdade e da injustiça dentro de uma visão do que você acredita que é Deus.</p>
<p style="text-align:justify;">RENATA: Somos seres divinos e co-criadores desta realidade. Se somos todos um mesmo corpo, Gaia, somos todos responsáveis pelo seu estado atual. A desigualdade e a injustiça são reflexos de nossos pensamentos, estão dentro de nós! Precisamos fazer o grande casamento entre as energias masculinas e femininas dentro da gente e acabar com esse abismo entre elas. Não dá mais para viver separando as duas. Nesta nova visão de mundo é inconcebível, por exemplo, sair para o trabalho e deixar a ética em casa. Colocar o amor e a compaixão nos alicerces desta nova consciência será o caminho. Precisamos ouvir mais nossos corações!</p>
<p style="text-align:justify;">FLÁVIA: Fale-me sobre as parcerias e os seus sonhos.</p>
<p style="text-align:justify;">RENATA: Um dos principais objetivos da Anitcha é tecer uma linda rede de parcerias. Juntar forças fortalecer os elos dessa corrente! Nossa primeira parceria foi com o projeto Terrapia (alimentação viva na promoção da saúde). Hoje contamos também com o Rotary Club Grajaú, a Ecovila Terra Una, a <a href="http://www.artnagual.com.br/" target="_blank"><span style="color:#993366;">Reserva RPPN El  Nagual</span></a>, a Subprefeitura da Grande Tijuca, o Parque Estadual do Grajaú, a ONG“Visão Futuro”, o SESC Tijuca, entre outros.</p>
<p style="text-align:justify;">Quanto a meus sonhos, são muitos!!! Adoro sonhar! Mas posso citar meu imenso desejo de fazer um estágio na <a href="http://4pilares.net/text-cont/pacheco-escoladaponte.htm" target="_blank"><span style="color:#993366;">Escola da Ponte</span></a>, em Portugal, e iniciar um trabalho com crianças índigo e cristal na Anitcha.  Outro sonho é poder me dedicar 100% a Anitcha, assim que a Casa se tornar auto-sustentável.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/flaviamuniz.wordpress.com/71/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/flaviamuniz.wordpress.com/71/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/flaviamuniz.wordpress.com/71/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/flaviamuniz.wordpress.com/71/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/flaviamuniz.wordpress.com/71/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/flaviamuniz.wordpress.com/71/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/flaviamuniz.wordpress.com/71/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/flaviamuniz.wordpress.com/71/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/flaviamuniz.wordpress.com/71/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/flaviamuniz.wordpress.com/71/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/flaviamuniz.wordpress.com/71/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/flaviamuniz.wordpress.com/71/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/flaviamuniz.wordpress.com/71/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/flaviamuniz.wordpress.com/71/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=flaviamuniz.wordpress.com&amp;blog=9800770&amp;post=71&amp;subd=flaviamuniz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>TROCANDO IDEIA COM RAMIRO OSÓRIO</title>
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		<pubDate>Fri, 26 Feb 2010 00:31:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>flaviamuniz</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Foi quando entrou o verão. Recebi um convite de minha amiga Ana Paula Lopes para um curso imperdível, na Estação das Letras. O professor logo entrou em contato comigo e mandou sua proposta para um não-curso. Eis aqui um trecho: “Gostaria que o que dissesse aqui fosse como o contar um sonho. O que é [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=flaviamuniz.wordpress.com&amp;blog=9800770&amp;post=65&amp;subd=flaviamuniz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><a href="http://flaviamuniz.files.wordpress.com/2010/02/ramiro-osorio-pensando23.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-66" title="Ramiro Osório pensando" src="http://flaviamuniz.files.wordpress.com/2010/02/ramiro-osorio-pensando23.jpg?w=300&#038;h=225" alt="" width="300" height="225" /></a>Foi quando entrou o verão. Recebi um convite de minha amiga Ana Paula Lopes para um curso imperdível, na Estação das Letras. O professor logo entrou em contato comigo e mandou sua proposta para um não-curso. Eis aqui um trecho: <strong>“Gostaria que o que dissesse aqui fosse como o contar um sonho. O que é que se aprende ouvindo os sonhos dos outros? O que é que se aprende tentando interpretar os nossos próprios sonhos? Camas à beira de falésias. Grutas habitadas por tribos pintalgadas. Um marinheiro que faz naufrágio para inventar um país que lhe afogasse as saudades do seu. O que é que se aprende lendo os sonhos dos outros, os pesadelos dos outros? sim porque a literatura é isso. Feita dessa matéria mesmo de que os sonhos são feitos de.”</strong> Pensei comigo: quem passaria os sábados do verão carioca numa aula de literatura? Os encontros começaram na véspera do meu aniversário, lançamento do meu livro. E foi impossível não trocar ideia. <a href="http://ramiroosorio.wordpress.com/" target="_blank"><span style="color:#800080;">Ramiro Osório </span></a>é mesmo muito interessante! Esta entrevista virou também um documentário chamado Ramiro Osório – “como os deuses vivi” (título de um dos seus livros). <a href="http://ramiroosorio.wordpress.com/" target="_blank"><span style="color:#800080;">Ramiro Osório</span> </a>é mais um daqueles escritores com uma obra imensa, e tão desconhecido do grande público. Ele nasceu em Lisboa.</p>
<p style="text-align:justify;">FLÁVIA: O que viu no Rio de Janeiro que o fez voltar tantas vezes ao Brasil?</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://ramiroosorio.wordpress.com/" target="_blank"><span style="color:#800080;">RAMIRO OSÓRIO</span></a>: Olha&#8230; São muitas coisas. São muitas coisas que me agradam a cá. E por isso é difícil dizer uma. Posso enumerar várias: o clima, a beleza do Rio&#8230; Já viajei muito e acho que é a cidade mais bonita do mundo. E gosto da música, gosto das cores, gosto dos sabores, dos amores&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">FLÁVIA: Você fala do sonho como escrita. Como é isso?</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://ramiroosorio.wordpress.com/" target="_blank"><span style="color:#800080;"> RAMIRO OSÓRIO</span></a>: Um pouco do que disse ontem lá na Estação, que a frase por exemplo do Shakespeare fala da matéria de que são feitos os sonhos, portanto uma matéria inexistente. A literatura ao deixar marca, deixa marca no papel. A matéria do que é feito o sonho seria a matéria do que é feita a literatura também. E depois, concretamente, esta questão do sonho também veio, porque durante a noite sonhei algo, que levou portanto, a matéria usada nesse primeiro encontro, que era o sonho de um curso de verão.</p>
<p style="text-align:justify;">FLÁVIA: Acordo ortográfico.</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#800080;"><a href="http://ramiroosorio.wordpress.com/" target="_blank">RAMIRO OSÓRIO</a></span>: Bem&#8230; Um idioma é composto de vários elementos e entre o português do Brasil e o português de Portugal, se dificuldade de compreensão mútua pode existir não é na ortografia, porque sempre lemos lá e cá os escritores de cá e lá, e isso nunca foi obstáculo. Eu acho que além da maneira de falar diferente, mais grave ainda é:  cada vez descubro mais vocábulos cuja significação é diferente num país e no outro. E portanto, o que é que interessa escrever do mesmo modo palavras que tem significado diferente?  Já basta que&#8230; Neste acordo ortográfico não é uma necessidade que vem de baixo, não é uma necessidade que vem do povo. É uma necessidade de editores brasileiros, sobretudo que querem expandir&#8230; toda a globalização&#8230; Outra coisa que estavam me apresentando é que o Brasil pode querer pertencer ao conselho de segurança da ONU.(&#8230;) O inglês da ONU é o inglês de Oxford e portanto fora da ONU &#8211; onde há um inglês unificado, nos Estados Unidos da América e na Inglaterra há duas grafias&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">FLÁVIA: “A literatura escreve-se com o fogo.” Que combustão é esta? É movido a desejos, Ramiro?</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://ramiroosorio.wordpress.com/" target="_blank"><span style="color:#800080;">RAMIRO OSÓRIO</span></a>: Há uma psicanalista que disse que o desejo nunca pode estar saciado, quer dizer, logo que se sacia um tem de haver outro, senão a pessoa morre. Quanto a combustão até o meu signo é fogo, acho que fogo com ascendência em fogo&#8230; Viver, escrever: só em estado de paixão.</p>
<p style="text-align:justify;">FLÁVIA: Uma frase chamou a minha atenção: “Abolir a escravatura da palavra.”</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#800080;"> </span><a href="http://ramiroosorio.wordpress.com/" target="_blank"><span style="color:#800080;">RAMIRO OSÓRIO</span></a>: O que eu quis dizer com isso tem a ver com um certo <em>leitmotive </em>que já tenho falado várias vezes, tem a ver com a transgressão. Que eu acho que não há transgressão artística se não se está transgredindo. Senão estamos apenas repetindo. E portanto, esta idéia que me surgiu espontaneamente de fazer uma analogia entre a abolição da escravatura e a abolição das palavras, estão sendo conduzidas pelos autores que não as deixam livres. E dei até um exemplo de Marguerite Duras<strong>&#8230; </strong>tinha falado: muitos autores jovens e atuais que quando escrevem é como se estivessem policiando as palavras, e que portanto o que sai nunca tem uma força do que está livre.</p>
<p style="text-align:justify;">FLÁVIA: As palavras como ponte. Fale da solidão.</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://ramiroosorio.wordpress.com/" target="_blank"> <span style="color:#800080;">RAMIRO OSÓRIO</span></a>: Eu acho que das várias coisas que tenho dito, talvez essa idéia de ponte é a mais banal ou a única banal.. Espero que seja a única banal&#8230; Mas prefiro portanto abordar, quer dizer toda gente fala, evidentemente a palavra é ponte, mas prefiro abordar por outro lado, que é o da solidão. E pronto. Eu faço bastante minhas as palavras de Blanchot, em que, para ele o escritor só entende a escritura, na escrita, a literatura, quando realmente está na solidão essencial, ele chama mesmo de essencial, que é um dos capítulos do seu livro “O Espaço Literário”, onde tem todo um desenvolvimento baseando-se em Kafka, Hölderlin, Mallarme&#8230; A solidão essencial pra escrever&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">FLÁVIA: Quantas palavras cabem na boca do poeta?</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#800080;"> </span><a href="http://ramiroosorio.wordpress.com/" target="_blank"><span style="color:#800080;">RAMIRO OSÓRIO</span></a>: Todas, mais as que inventar. Todas que existem, mais as que inventar.</p>
<p style="text-align:justify;">FLÁVIA: O que é ser humano?</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://ramiroosorio.wordpress.com/" target="_blank"><span style="color:#800080;"> RAMIRO OSÓRIO</span></a>: O que é ser humano? (&#8230;) É substantivar o verbo ser: um ser. É ser. É não estar, é ser.</p>
<p style="text-align:justify;">FLÁVIA: Como a imaginação acontece dentro de você?</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#800080;"> </span><a href="http://ramiroosorio.wordpress.com/" target="_blank"><span style="color:#800080;">RAMIRO OSÓRIO</span></a>: Não tenho nenhuma imaginação pra descrever isto, surge! Não sei&#8230; Não sei se a palavra mais própria é imaginação, porque eu parto em geral do real. Só que depois realmente é como se levantasse vôo, e portanto passo do que aconteceu pro que não aconteceu sem dar por isso, mas não sei se isso é imaginação&#8230; Pra mim é impossível descrever esse mecanismo&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">FLÁVIA: Fale um pouco da terra natal. Acha que ao longo da vida buscamos o conforto deste lugar?</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://ramiroosorio.wordpress.com/" target="_blank"> <span style="color:#800080;">RAMIRO OSÓRIO</span></a>: Bom&#8230; Vou começar fugindo. Nas aulas falei muito de cinema, aqui ainda não. O cinema está aí. Estava pensando enquanto estava ouvindo a sua pergunta na versão cinematográfica do Édipo, de Pasolini&#8230; Em que no fim da vida, quando o Édipo já está muito velho, acompanhado a Antígona, se apóia no braço da filha Antígona pra poder andar – ele se cegou. E há uma altura que ele começa pelo cheiro, começa dizendo: hum!hum! Acho que estou chegando onde nasci. Há um jardim. E pelo cheiro começa a reconhecer o ponto onde nasceu, e é o ponto onde vai morrer&#8230; Ontem na leitura de “como os deuses vivi”, quando falei na Rua do Livramento onde nasceu meu pai&#8230; Acontece que ele morreu num hospital muito perto desta rua onde nasceu. Mas enfim&#8230;como não acredito em esoterismos&#8230;(&#8230;) Mas disse que começava respondendo fugindo&#8230; Voltando a pergunta, pronto&#8230; É evidente&#8230; Eu nasci em Lisboa, é minha terra natal&#8230; Mas não tenho muita noção de pátria, a não ser mais através da língua. Sobre a infância&#8230; Acho que é um paraíso perdido – <em>lost paradise, </em>mas cada coisa tem o seu tempo e portanto há outros paraísos&#8230; Sobretudo o futuro&#8230;(risos) Mentindo a noventa por cento!!!!</p>
<p style="text-align:justify;">FLÁVIA: Para onde vamos depois da morte?</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#800080;"><a href="http://ramiroosorio.wordpress.com/" target="_blank">RAMIRO OSÓRIO</a></span>: Pra onde vamos depois? Não há depois&#8230; É aqui e agora. <em>It’s now or never.</em> Não acredito mesmo…</p>
<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://flaviamuniz.wordpress.com/2010/02/25/trocando-ideia-com-ramiro-osorio-2/"><img src="http://img.youtube.com/vi/NHxUe9fUgNw/2.jpg" alt="" /></a></span>
<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://flaviamuniz.wordpress.com/2010/02/25/trocando-ideia-com-ramiro-osorio-2/"><img src="http://img.youtube.com/vi/6wIs_7x7IGA/2.jpg" alt="" /></a></span>
<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://flaviamuniz.wordpress.com/2010/02/25/trocando-ideia-com-ramiro-osorio-2/"><img src="http://img.youtube.com/vi/n1F2bNvPoVA/2.jpg" alt="" /></a></span>
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		<title>TROCANDO IDEIA COM JOSÉ DA SILVA &#8220;PONTES&#8221;</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Feb 2010 19:55:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>flaviamuniz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[cidadania]]></category>
		<category><![CDATA[entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Flávia Muniz]]></category>
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		<description><![CDATA[Quando conheci José da Silva eu chorei. Chorei mesmo. Nós estávamos matriculados na mesma turma, na matéria oferecida pelo professor Evandro Ouriques(UFRJ): Jornalismo para políticas públicas e sociais. Ao se apresentar, José da Silva disse que veio do brejo e ao ser selecionado para o curso chorou de alegria. Voltou a estudar faz dez anos [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=flaviamuniz.wordpress.com&amp;blog=9800770&amp;post=25&amp;subd=flaviamuniz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img title="José da Silva " src="http://flaviamuniz.files.wordpress.com/2010/02/jose-silva-cine.jpg?w=246&#038;h=299" alt="procurando o diploma de teologia" width="246" height="299" /></p>
<p style="text-align:justify;">Quando conheci José da Silva eu chorei. Chorei mesmo. Nós estávamos matriculados na mesma turma, na matéria oferecida pelo professor <a href="http://evouriques.wordpress.com/" target="_blank">Evandro Ouriques</a>(UFRJ): Jornalismo para políticas públicas e sociais. Ao se apresentar, José da Silva disse que veio do brejo e ao ser selecionado para o curso chorou de alegria. Voltou a estudar faz dez anos e já está cursando uma pós-graduação em história. É morador da mangueira, foi candidato a deputado federal nas eleições passadas,  e é tão humilde que eu quis me aproximar mais para ver se esta virtude contagia! Eis aqui um pouco desta troca de ideias.</p>
<p style="text-align:justify;">FLÁVIA: Queria que o senhor me contasse tudo desde o princípio.</p>
<p style="text-align:justify;">JOSÉ: Nasci em 23/04/1942 em Laranjais(MG). Fui achado numa moita de arroz pelo meu pai adotivo. É o que me contaram. Minha mãe de sangue era negra e meu pai era rezador, curandeiro. Em 1944, no término da Guerra, eu vim pra Mangueira com a família que me adotou. Naquela época a Mangueira era bem diferente, tinha sempre roda de samba, as crianças brincavam de pique, peão e pipa. Eram barracões de folha de zinco e casas de pau a pique. Mas não é saudosismo não. Acho que o que falta ao povo é a preservação da memória cultural.</p>
<p style="text-align:justify;">FLÁVIA: Por que parou de estudar?</p>
<p style="text-align:justify;">JOSÉ: Fui crescendo. Meu primeiro serviço foi na Quinta da Boa Vista. Estudei até a 4º série e parei pra ajudar no orçamento da casa. Uma coisa que quero te contar é que sempre fui envolvido com a vida cultural da comunidade: a folia de reis e o samba, mas acho que não tinha vocação pra ser sambista.</p>
<p style="text-align:justify;">FLÁVIA: E quando foi que começou a se dar conta que precisava estudar?</p>
<p style="text-align:justify;">JOSÉ: Mais ou menos na época da ditadura, quando fiquei envolvido com a política. Conheci o Brizola, e filiado ao partido comecei a ter um esclarecimento do que é ser cidadão. Então quis retomar os estudos. Concluí o ensino médio e fui um dos primeiros bolsistas do ENEM. Eu estudava muito e por isto cheguei na faculdade. Eu reciclava folha, copiava o livro, lia e escrevia bastante.</p>
<p style="text-align:justify;">FLÁVIA: Então você não para de sonhar?</p>
<p style="text-align:justify;">JOSÉ: As coisas vão acontecendo, né? Conforme fui estudando, fui gostando e até rejuvenesci. Quando concluí história tive um envolvimento com a Feira de São Cristóvão. Fui um articulador de melhorias na comunidade(na enchente de 1988 a gente ficou desabrigado e eu ajudei mesmo!). Agora faço curso de informática, concluí o JPPS, faço a pós-graduação&#8230; Hoje eu tenho uma proposta. Quando me candidatei vi a necessidade de ter uma formação básica, para postular um cargo eletivo. Tem que ter cultura pedagógica. Uma coisa que eu digo é: EU QUERO SER O PRIMEIRO DIPLOMATA DA FAVELA, SE DEUS NÃO CORTAR O FIO DA MINHA VIDA. EU QUERO MORRER ABRAÇADO A UM LIVRO. Quando me convidou pro lançamento do seu livro eu fui pois é aí também que estou sendo construído.</p>
<p style="text-align:justify;">FLÁVIA: Mas e a teologia? O senhor também é formado em teologia&#8230; O que é Deus?</p>
<p style="text-align:justify;">JOSÉ: Deus é tudo. Eu nunca perdi a fé no evangelho, mas sim nos líderes religiosos. Uma ocasião eu sonhei que estava em Israel pregando para os Judeus e passei a pesquisar sobre o país. Acabei indo estudar teologia, sou formado, deixa eu te mostrar o diploma(&#8230;) “Vós sereis meus amigos se amarem uns aos outros.” Todos somos uma manifestação divina. Como historiador eu digo: Deus não pode ser imposto pela violência, como foi o caso da catequização. Estamos aqui pra viver. Acredito num Deus justo, que não faz acepção de pessoas. Uma sociedade mais justa tem que esquecer o individualismo e ir pelo coletivismo. O governo tem que praticar justiça social. A ganância torna as pessoas desumanas. Na minha pesquisa  vou falar sobre a violência nas favelas e a injustiça social.</p>
<span style="text-align:center; display: block;"><a href="http://flaviamuniz.wordpress.com/2010/02/01/trocando-ideia-com-jose-da-silva-pontes/"><img src="http://img.youtube.com/vi/DqoCULeFnXs/2.jpg" alt="" /></a></span>
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