TROCANDO IDEIA COM NUNO PINO CUSTÓDIO

Desde que perdi a vinda do escritor Mia Couto ao Brasil, procuro ficar atenta aos eventos da Talu produções. A produtora realizou neste início de novembro o evento “Encontros culturais da língua portuguesa”. Ao receber o convite, logo me matriculei na oficina “Máscaras em movimento” com ator e diretor Nuno Pino Custódio, para uma pequena mostra da metodologia que pesquisa. Durante o mini-curso uma frase dele chamou a minha atenção: “Teatro é você ir para trás e fazer com que acreditem que está indo para frente.” O objetivo do método das máscaras? Prefiro que tu descubras lendo a entrevista. O que posso dizer é que gostei tanto, que Nuno furou fila de outros entrevistados. É muito bonita a maneira que ele desenvolve as ideias. Palavras, vídeos e um trecho em áudio de Nuno declamando Álvaro de Campos. Bom espetáculo!

FLÁVIA: Nuno Pino Custódio. Que definições habitam a existência que leva esse nome?

NUNO: (continuação do vídeo…) mais artística, e tinha esta vertente também no meu trabalho. Então eu pensava que resumia bem o que eles me davam. É uma forma de lhes agradecer também uma coisa muito importante, que eu conheço dos dois de formas diferentes, um amor que me deram pela vida, pela descoberta das coisas. Há um amor que eu tenho, quando me próprio das coisas, que é deles. Então pensava que isso não era justo, que não podia assinar uma ficha artística só com o nome do meu pai e a minha mãe ia ficar de fora, quando ela estava ali tão bem representada. O maior patrimônio que os pais podem deixar aos filhos são recursos interiores para amarem a vida. Isso os afasta de qualquer problema no futuro.

FLÁVIA: Conta como surgiu o teatro na sua vida e quando passou a usar o método das máscaras.

FLÁVIA: Você podia falar um pouco da sua metodologia de escrita, onde você se utiliza dos atores e de todo o processo criativo.

NUNO: Por causa de uma relação cultural que temos com a escrita, por causa de uma forma muito antiga de fazer teatro – que para mim já está gasta – existe a prática de se fazer um texto, ou seja, a proposta do espetáculo é o texto, está escrito num livro, no papel, seja lá onde for, que contém a fala das personagens. Então essa é uma perspectiva que nós chamamos textocentrista e eu penso que é muito redutora para uma ideia que o teatro tem encerrada em si mesmo. Diminui o teatro essa visão textocentrista, mesmo que culturalmente seja um objeto muito interessante, valioso, profundo, humano. Porque depois é possível, de fato, nós termos ali aquele texto e levá-lo para uma camada de interpretação que parece que não era texto escrito, registrado. Então, de uma forma comum, decora-se um texto, estuda-se o texto, percebe-se o seu sentido e fecha o espetáculo.

Eu penso que tenha que haver outras propostas de teatro, sobretudo porque vivemos numa sociedade, toda ela parada no ego, na mente, no intelecto. Então andamos viciados na cabeça, no texto, no pensamento e somos extremamente infelizes com isso. O pensamento acaba por ser histeria apenas. As pessoas falam, falam ,falam, falam e falam da morte para não falarem da morte, já chegamos a este ponto. Vivemos mundos muito virtuais. Nas nossas cidades, nas nossas ruas, não aprendemos a viver. Criamos uma espécie de “second life”.

Eu vou a tabacaria comprar tabaco, olha eu ir a tabacaria comprar tabaco, olho a pessoa a vender-me tabaco. Observamo-nos. É só o texto. Falamos com as pessoas e apenas é o texto meu e dela que interagem, mas não somos nós. E quantas vezes, não quase sempre, os nossos corpos estão a dizer coisas diferentes? Isso chega ao cúmulo de nós termos objetivos para nossa vida e lutarmos uma vida inteira por objetivos, que não são coisas que queremos. O ego não somos nós. É um eu social. A voz do ego que está sempre a falar não é a nossa voz. Diz coisas que não nos representam, inclusive. Sai por nosso corpo, mas não somos nós que dizemos. Então eu penso que o teatro é solução para estancar isto, voltarmos ao corpo e a sensação de presença, voltarmos a sentirmos presentes: eu tenho mãos, eu tenho ombro, eu estou aqui, tu estás aí, o mar está ali. Estamos a viver! Então é isso que eu proponho. Não pode ser lendo um texto, que é toda uma lógica parada no intelecto. Quando eu escrevo teatro é a mesma coisa. Eu escrevo com a cabeça, não com o corpo. A primeira coisa que me apetece fazer quando vejo uma folha de papel branca é pensar no que as personagens vão dizer. Então a ação fica remetida ao que as pessoas dizem e ação é muito mais do que isto.

Aquele senhor está descendo a praia e o corpo dele diz qualquer coisa, não é? Está cansado. Eu já não sei dizer que está cansado. Eu preciso dizer que está cansado para perceber que está cansado. Não há uma experiência de descoberta no cotidiano. Há um texto que a gente obedece. Eu quero que os expectadores nas minhas peças aprendam no corpo e não que esteja informado. Eu não quero palavras mais. Eu não quero que a casa tenha um rótulo a dizer casa. Eu quero que se sinta que se está numa casa, percebes? Que é isso que acontece nas nossas ruas. Nós não sentimos que estamos a fazer coisas. Nós combinamos e convencionamos que estamos a fazê-las. Então eu penso que o ser humano tem o direito de pensar que deve ser feliz. Nós estamos cá para isso, eu acredito nisso. Há cem anos atrás, morria-se com 40 anos, era normal, então na perspectiva da sobrevivência do ser humano nós nos reproduzíamos e depois morríamos, mas agora aqueles que são pais continuam vivos, reformam-se e a pergunta é feita a cá: e agora? O que eu faço? Eu quero ser feliz! E a felicidade já não precisa mais ser na outra vida. Porque ela era prometida na outra vida. Morremos mas depois vamos para o paraíso. Não. O paraíso é aqui. Então a questão da felicidade é uma questão que se coloca aqui-agora, hoje. E as pessoas não estão nada felizes. Se tu vais a Nova York qualquer pessoa está com uma pressa de qualquer coisas, está com uma infelicidade nos olhos. Eu não sei se consigo ser feliz, nem sequer quero pensar nessa questão, mas a luta para isso é o que basta. Estou vivo. Pronto.

FLÁVIA: Tanto no curso quanto na peça eu percebi uma questão muito forte de pensar um tempo diferente desse proposto pelo capitalismo e também uma questão do que é a essência da vida.

NUNO: Eu penso que há todo um mecanismo que está muito bem montado. As pessoas são tentadas a sentir a sua identidade através dos objetos, do ter. Portanto há uma identificação com a forma e não com o conteúdo. E isso dispoleta, precisamente, o ego. Eu sou aquilo que tenho, portanto, eu sou mais poderoso, eu sou mais rico, eu sou mais famoso, eu sou mais amado etc., e quando as pessoas estão no ego elas estão no oposto do seu ser verdadeiro, literalmente, na Austrália, nos antípodas – para nós em Portugal a Austrália é o contrário – e então as pessoas se desintegram. Já não há mais um sentimento coletivo. Está cada um por si. Desintegradas as pessoas são manipuladas, porque já não é um conjunto, já não há um grupo de pessoas a fazer Revolução Francesa, todos que tem a Revolução Francesa dentro de si, mas como somos ilha, não temos força. Então facilmente somos derrotados, ou seja, nós somos muitos, somos milhões, mas somos milhões semelhantes. Somos o mesmo. Temos a mesma roupa, os mesmos desejos, os mesmos pensamentos, os mesmos passatempos, o mesmo ideal de férias, isto de uma forma geral, claro. Então não existe uma consciência, as pessoas são manipuláveis. Se são manipuláveis, são instintivas. Alguém te diz vai para ali e tu vais para ali. Alguém te diz compra e tu compras. Alguém de diz como te chamas e tu respondes logo. Na revolução industrial era o carvão, era a lã, era o milho, eram as matérias-primas. Hoje as matérias-primas são as pessoas com cartão de crédito. O que é importante é que o dinheiro circule. O que é inimigo disto? É parar e pensar. Se tu paras a engrenagem bloqueia. O que eu proponho as pessoas nas minhas aulas é simplesmente pararem. Podem errar, podem parar, podem pensar duas vezes antes de fazer e se fizerem mal podem voltar a parar. É possível isto na vida. Só atravessar a estrada é que não, isso é perigoso. (risos) Mas é possível alguém me perguntar como é que eu me chamo e eu pensar como é que vou responder. É uma questão de consciência. Vou dizer com as vogais mais abertas porque estou no Brasil. É só ter uma possibilidade de sentir, pensar e depois agir. Ao invés de ser instintivo. Até porque se eu for instintivo eu não estou a fazer teatro, eu não sou outro. Se eu não tiver consciência do meu corpo eu não estou a ser aquela personagem outra. Então a questão do tempo passa muito por aqui, de criar consciência, antes de fazer, consciência. Porque senão eu não crio, eu não sou artista, eu não estou a passar de dentro para fora. Se não houver uma intencionalidade, eu não chamo isso arte. Eu tenho que ter consciência do que estou a fazer, porque senão não estou a comunicar nada. Estou apenas a agir.

FLÁVIA: Explica o que é a “ESTE” (Estação Teatral da Beira Interior). E porque optar por fazer a companhia fora do grande centro que é Lisboa.

FLÁVIA: O que move a sua escrita? E me diz também suas preferências literárias e musicais.

NUNO: Quando escrevo procuro outro tempo, outro espaço, outras pessoas. Tudo longe. Tudo não-eu. E procuro ser isto depois, quando escrevo. Procuro viajar até lá: de mim até a personagem, de mim até a situação. E viajar descobrindo. E nesse encontro com o outro descobrir-me realmente. Em termos gerais, acho que é isso que eu procuro. Normalmente as minhas peças são sempre feitas de imaginários muito distantes. São quase sempre peças de outros tempos. Quase nunca cotidianas. Esta peça dos Cozinheiros é muito próxima do meu tempo, mas normalmente são peças em que o imaginário é no século XIX ou na idade média ou no século XVII. É sempre o mais distante de mim possível, porque a grande viagem é essa: é de uma pessoa para outra. Depois procuro humanidade. Procuro acreditar que isto é humano. Está tão distante de mim, está tão longe. É um lavrador do século XVII, que mal sabe falar português e é tão humano, é tão verdadeiro. Eu acredito no que está a acontecer. Então aí me sinto realizado e posso pensar nisso como um objeto para teatro. Posso dar isso a alguém. Tudo o que eu procuro é que o ser humano se veja em espelho, sinta, se reflita lá, se identifique com o que está a acontecer. Quanto mais distante for o universo melhor ainda. É um imaginário que eu nem imaginava que acontecesse e de repente eu sinto-me lá, é fantástico! Eu penso que as sociedades orientadas pelo capitalismo despistam a ideia de humanidade. Des-ensinam as pessoas a serem humanas, a sentir o humano. E o teatro justamente propõe o contrário. Se não tiver a vertente do humano ali, não funciona. Eu acredito que o teatro é mesmo necessário. O teatro é uma necessidade e vai sempre existir. Uma necessidade antropológica, quanto mais não seja, do ser humano. O que eu procuro com a escrita é mais isto.

As minhas leituras: eu tenho uma relação muito estranha com os livros. Tenho muitos livros. A minha mãe é bibliotecária, e até a minha adolescência vivemos numa casa que nos expulsou de casa, porque já não cabíamos lá dentro, tinha muitos livros. Minha mãe comprava livros compulsivamente e não os lia. O ato de comprar um livro era um ato cultural. Eu criei uma relação de afastamento com isto. Li muito pouco. Devo ter lido dez, doze romances em toda a minha vida. Embora minha relação com o livro seja uma relação muito próxima. O que eu leio, sobretudo, são livros de ciências, livros técnicos, sobre neurobiologia. Antônio Damasio é um autor que eu aprecio muito. Eu penso que essa relação de afastamento com a escrita me ajuda bastante na ideia de teatro que construo, que é, sobretudo, uma ideia sustentada na visão.

O que eu mais ouço? Eu gosto de música. Tenho um i-pod com toda a minha coleção de discos, são novecentos CDs. E tem de tudo: música medieval, música experimental, música grega, mediterrânica. Gosto imenso da música cigana dos Balcãs, as fanfarras. Gosto muito de música brasileira. É muito freqüente um português ter a discografia do Caetano, ou do Chico, ou do Gil ,ou do João Gilberto, ou do Tom Jobim. São compositores tão conhecidos quanto os compositores portugueses, lá. O Chico eu acho que é precioso, é monumental. Tenho os discos todos do Chico Buarque. Gosto de jazz, gosto de música clássica. Não gosto de música muito moderna. Gosto muito da melodia. Sou muito melómano. Porque se a melodia for fácil de ouvir e doce, eu gosto. Seja o que for. Gosto de Paulinho da Viola, muito! Conheço Paulinho da Viola desde os quatorze anos, sem nunca pensar que poderia chegar ao Brasil.

FLÁVIA: Eu gosto de fazer uma pergunta: o que é ser humano?

FLÁVIA: O que é o mais importante da vida?

FLÁVIA: Teatro vem da palavra theos – que é dar a ver – que também origina a palavra teorema, teoria, tanto que esse termo foi até associado a Deus. Eu queria que você falasse um pouco, já que você está nesse movimento de desejar menos: o teatro é uma forma de religião, de conversar com Deus, de estar aqui-agora vivo e se descobrir?

NUNO: Sim. Há uma frase do Fernando Pessoa que sempre sigo, ele diz – eu penso que é o Alberto Caeiro ou Ricardo Reis – agora não me recordo, mas também não é importante, ele diz que ver é sentir. O hinduísmo diz que ver é dizer a verdade. Então o importante é ver e ver não é só estar a olhar o que está a frente, é ver, ter esta consciência, estar a acontecer isto. Eu estou a ver. Penso que o teatro é esta grande possibilidade, porque nós isolamo-nos e preparamos qualquer coisa para ser vista e alguém vai dizer “eu vi”. Porque foi feito para eu ver. Então ser ator ou ser diretor ou ser espectador é tudo a mesma coisa. São extremidades da mesma coisa. Eu costumo dizer até que o autor foi o espectador que ousou fazer. O espectador foi ator que ousou ver. É tudo a mesma coisa. Os seres humanos, portanto, tem a oportunidade de ver melhor com o teatro, ou seja, dedicam tempo a trabalhar um assunto, a ver de vários ângulos, a refletir sobre ele, a escolher o melhor ângulo para ser visto, a aprender a fazê-lo de novo e dedica um tempo para se concentrarem no espaço e no tempo para chamar outros em maior número, não apenas aleatoriamente. Então todos se reúnem e isto é divino. Numa certa perspectiva isto é acima. Esta perspectiva de convencer toda uma sala a acreditar numa história, isto é extraordinário, não é? Isto é muito bonito. Então esta história aconteceu e toda gente vai ficar a pensar que aconteceu desta forma. Tenho que fazer para que todos entendam: pessoas de extratos sociais diferentes. Preciso encontrar um signo para todos perceberem. Então isto me obriga a pensar no outro. Constantemente no outro. Eu penso que isto é uma forma de estar com Deus. Eu não tenho religião nenhuma. Não acredito em deus nenhum. Respeito todas as outras religiões, mas acredito num ser humano superior, numa dimensão divina, acredito numa elevação.

No final da entrevista perguntei ao Nuno se ele gosta de Fernando Pessoa e pedi para que ele declamasse algum poema do livro “Mensagem”.

NUNO: Se eu gosto de Fernando pessoa? Em parte gosto. Noutra parte ele está também no expoente daquilo que eu fujo, ou seja, eu acho que ele é um poeta extraordinariamente lúcido e tem uma capacidade de por em versos. Precessões que eu já tive, mas nunca consegui verbalizar e, portanto, aí, sinto-me tocado, identificado e acho maravilhoso. Por exemplo, ele diz “Querer não é poder. Aquele que quer perde-se em querer e aquele que pode, quer antes de poder só depois de poder.” Isto é alguém que tem Deus com ele. Ele consegue de repente verbalizar: querer antes de poder só depois de poder. É uma obsessão muito difícil de verbalizar, mas é certa. Fernando Pessoa tem isto. Tem esta lucidez e tem uma beleza na sua escrita, mas depois também tem o lado psicótico, histérico. Pensamento, pensamento, pensamento. Eu,eu,eu. O que eu sinto é intelectualizar os pensamentos. Eu fujo disso. Já me enjoa. Então vou ler uma coisa que eu goste.

NUNO DECLAMA TRECHO DO POEMA “TABACARIA”, DE ÁLVARO DE CAMPOS (ouça abaixo):


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