TROCANDO IDEIA COM DELL DELAMBRE

Ô, sô! Prosa adiada! Nos conhecemos no evento ecumênico que ocorreu na candelária, em memória dos 17 anos da chacina da Candelária, em julho de 2010. Eu fui cantar o “Quero ver verdejar” no evento para as mães que perderam seus filhos. Foram alguns minutos de conversa naquele dia e descobrimos que somos vizinhos. Dellambre é professor de teologia e sua área de pesquisa é voltada para um campo que eu me interesso muito: sustentabilidade e aquecimento global. Ele tem uma fala calma, morou na Alemanha e criou o projeto “Gol para o planeta”. Em tempos de Copa do mundo e Olimpíadas, nada mais pertinente! E o que faz a teologia no meio de um projeto social? Através da reflexão profunda do ser humano é possível que as pessoas transformem suas vidas aqui e agora.  Aproveitem o sotaque mineiro dele que eu vou ali tomar um “cafezim”.

FLÁVIA: Eu costumo perguntar as pessoas de que forma elas se reconhecem no nome que têm.  Sempre penso nas raízes que nos constituem. Dellambre é um nome diferente. Que pessoa é esta aí?

FLÁVIA: Você é professor de teologia – que é o estudo de Deus (está certa esta definição? Qual é a melhor maneira de definir o que é teologia?).O que esse estudo trouxe de conhecimento/entendimento/transformação pra sua vida?

FLÁVIA: Ainda ligada a pergunta anterior: de que forma você vê a questão dos conflitos religiosos e onde foi exatamente que se formaram os alicerces dos fundamentalismos?

DELLAMBRE: Todas as vezes que a gente fosse falar alguma coisa sobre o ser humano, a gente deveria primeiro parar, ouvir, pensar, refletir e depois falar. Cada vez que eu aprofundo o estudo da teologia, atravessando aí, o que a gente chama hoje de ciência da religião, a gente vai percebendo que diante da religião nós temos um ser humano diferenciado. Só quem convive, se aproxima ou se aproximou desse grupo, de forma talvez presente, no sentido de alguém que busca algum tipo de resposta ou de caminho para compreender a realidade, mas também de forma técnica e científica, passa a ter um olhar diferenciado para a vida. É como se a religião fizesse com que o ser humano retomasse dimensões profundas da sua existência, mas que de alguma forma o interliga, o conecta com dimensões profundas da história da humanidade, ou do ethos da humanidade, ou seja, nós estamos tocando nas questões que fazem parte da origem do ser humano. Então você vai ter olhares de outras dimensões da sociedade. Na minha leitura não é pior e nem melhor. São olhares diferenciados. Vai ficando evidente para a gente que pesquisa, que a história das religiões, faz com que, aos poucos, haja um olhar diferenciado para uma dimensão transcendental que move as pessoas. Isso se mistura com dimensões da nossa humanidade e da nossa dimensão ontológica, que no balanço cósmico do universo – que se movimenta pelo movimento de expansão e de contração, de ajustes e desajustes – essa dimensão de desajuste do ser humano parece que em alguns momentos fica muito evidente: é uma dimensão mais egoísta, mais destrutiva, mais escravizadora do outro. Na concepção religiosa essa dimensão negativa faz com que uma parcela esteja numa condição superior à outra e assim ela se vê no lugar de julgar o outro, de condenar o outro e, se usa aí uma palavra difícil, que é questão da verdade – e numa perspectiva de exclusão, se eu tenho uma verdade o outro tem uma mentira, se eu tenho uma verdade eu me sinto na obrigação de eliminar o outro. Eu diria que do ponto de vista teórico, a gente pode pensar o fundamentalismo religioso dentro dessa premissa.

Agora, do ponto de vista técnico, a gente tem dados históricos que vão mapiar os momentos específicos de surgimento de uma teoria fundamentalista. No livro do Leonardo Boff sobre fundamentalismo religioso, ele mostra que a forma que igreja católica fazia as cruzadas, na idade média, é possível ver traços do que teoricamente a gente poderia definir como fundamentalismo. Mas o termo fundamentalismo nasce na primeira década do século XX, nos estados unidos, e tem uma questão teológica de fundo, que é um movimento de teologia que surge na Alemanha, especificamente. A gente chama de teologia liberal – era um projeto teológico que queria estabelecer um diálogo com todo o movimento de filosofia, de literatura, tudo fruto da teoria do liberalismo do século XVII, que influência todas as áreas do saber. Em nome desse diálogo você tem a relativização de alguns valores da teologia. O método histórico crítico faz, naquela época, com que haja um olhar para o passado, à luz daquilo que você entende ser verdade. Alguns textos do antigo testamento e de Jesus Cristo foram lidos como mitológicos. O que aconteceu? Veio a primeira guerra mundial e a segunda guerra mundial. Os evangélicos dos estados unidos concluíram que os releitores dos textos sagrados foram os responsáveis por esses problemas. Então foi proposto que houvesse um retorno a dimensões fundamentais da fé cristã. Foi feita uma revista chamada os fundamentalistas, que ainda não tinha esse caráter de fulminar o outro em nome da minha verdade. Mas foi mais tarde, junto com uma visão imperialista, que esses valores construíram uma epistemologia fundamentalista, que diz: a partir da minha verdade eu tenho o direito de eliminar o outro. E a partir daí a questão fundamentalista ultrapassa a perspectiva religiosa. Há também o fundamentalismo econômico. Há uma ética capitalista que justifica que um país tenha muito e outro não tenha nada.

Para ilustrar isso que acabei de falar: eu orientei uma monografia de um surdo, que concluiu o curso de teologia. Uma das maiores angústias do graduando era descobrir no trabalho científico dele, que pensando na ética do capitalismo como deficiente ele não consegue produzir no ritmo que o modelo produz. Não consegue produzir num ritmo de uma sociedade formatada nos valores das pessoas que são “normais”. Ou seja, a epistemologia fundamentalista passou a ser um modo de nós percebermos a vida e a existência. É uma dimensão que tangencia a vida e vai colocando do lado de fora aqueles que não servem para a nossa convivência. Porque nesse modelo, eles não têm o que oferecer, a partir do que nós já pré-estabelecemos o que é o comum.

Se por um lado há coisas muito bem solidificadas, por outro lado, parece que o rumo da história está se tratando de desconstruir algumas questões que foram colocadas séculos e séculos como unânimes: a questão da mulher, a questão das classes excluídas. É um tempo interessante. Para algumas pessoas um tempo de angústia, mas para outros de muita esperança. É aí que eu me situo. Apesar da angústia, perpassa também a esperança.

FLÁVIA:Gol para o planeta”. Fale do projeto e da sua tese de doutorado.

(continuação do vídeo…) Em minha tese de doutorado, eu já propunha um caminho alternativo de contemplação da realidade e encantamento da vida. Nela está a base para se pensar a sustentabilidade integral, mais que a economia e a técnica. Os quatro anos de estudos de doutorado marcam os movimentos em minha vida: parte da tese reflete meu período na favela carioca, parte reflete o contraste experimentado no contexto da Alemanha e a última parte reflete minha chegada ao tema do aquecimento global, isto é, o contato com o Centro de Educação Ambiental Gênesis, em São Gonçalo, Rio. Em princípio, minha vida é extensão e continuidade de minha tese. No próximo ano, entro de cheio na pesquisa sobre mudanças climáticas. Estive em Berlim em Janeiro desse ano de 2010, no Instituto Urânia. Ouvi uma importante conferência com o Dr. Stefan Rahmstorf, pesquisador e professor da universidade de Postdam, Alemanha, que esteve na COP15.

O projeto Gol para o planeta está entrelaçado em tudo isso. Os alunos da faculdade, em particular do PFint, Programa de Formação Integral da FABAT, utilizam a comunidade do Mato Alto, através do projeto “Gol para o planeta”, para o desenvolvimento dos seus trabalhos e das suas pesquisas de extensão. Através do projeto, em 2011, conheceremos todo o processo de recuperação e revitalização da Lagoa Rodrigo de Freitas. Conheceremos o percurso do Rio Maracanã: partes mortas e partes vivas. No projeto “Gol para o Planeta”, com a graduando em história, Aline Nobre, privilegiamos a “história oral”.

Temos algumas metas e ações. No mês passado, fizemos uma caminhada ecológica dentro da comunidade com alunos universitários e pessoas da comunidade. Foi feito um debate com o título “recontando a história” com intuito de resgatar a história oral. O projeto “Gol para o planeta” é também onde eu encontro sentido pra minha vida, é um projeto voluntário. A ideia é que ele seja um projeto piloto de algumas coisas que nós achamos importantes para o desenvolvimento do Rio de Janeiro. Quando pensamos em Copa do Mundo e Olimpíadas em 2014 e 2016, desejamos que em 2016 haja uma geração de crianças e adolescentes com um legado de uma educação diferenciada. Isso seria uma forma de fazer com que a cidade fosse boa para todos. Esse é o sonho do projeto “Gol para o planeta”.

FLÁVIA: eu pensei que vocês tivessem apoio. O que eu acho interessante no projeto é que aborda a dimensão sonho do ser humano e a auto-estima.

DELLAMBRE: Esse é o nosso ponto central. E aí, com dinheiro ou sem dinheiro, a gente consegue fazer. Tenho vários voluntários que sempre ajudam. Por exemplo, na pré-produção, direção e planejamento do Videoclipe “Gol para o Planeta”, a cantora e jornalista Claudia da Luz Montenegro, deu todo apoio. Sem seu talento e competência, ficaria muito difícil a finalização da idéia. Do início ao final, sua contribuição trouxe características bem profissionais à produção na parte de teatro, texto, atuando como cineasta, correção da música do videoclipe. Contamos com sua competência também nos projetos dos documentários e o filme que sonhamos produzir.

E na minha experiência lá, posso dizer que a teologia foi fundamental. Na época da barra pesada lá na favela, coisas sobre as quais não me é licito falar, entrei em lugares onde o Estado não podia ir, o psicólogo também não, o pedagogo também não. Mas eu nunca tive problemas, entrava e saia e estava presente nas situações limites que tangenciavam a alma humana naquele contexto.

FLÁVIA: Ontem saiu um relatório da ONU, nada otimista, sobre as “perspectivas da alimentação”. Outro dia eu vi que você publicou algo sobre esse tema. Em que grau isso te assusta e como é o elo disso com a sua pesquisa?

DELLAMBRE: O conceito de sustentabilidade que trabalho e desenvolvo nas minhas pesquisas, chamo de “sustentabilidade dos valores da vida, para a vida”. “Para minha pesquisa, pouco importa se há ou não o Aquecimento Global, pois nosso Esfriamento Relacional já atingiu de cheio a biodiversidade” D. Delambre.

A questão da sustentabilidade hoje é tão central que ela não pode ser reduzida a uma fatia da sociedade. É um tema que necessita da contribuição de todos. E onde é que eu me situo quando se fala nessa questão da pobreza, do ponto de vista da sustentabilidade? Acredito que a humanidade chegou num momento que já pode definir quais rumos vai e quer tomar. Antigamente, se alguém nascia com alguma deficiência, acreditava-se que ele estava sendo submetido a algum castigado por um determinado mal feito pela família. Essa leitura perpassa diversas culturas e também a bíblia judaica e cristã no Antigo Testamento. Um aprofundamento sobre a crise da “teologia da retribuição” no Antigo Testamento pode-se compreender isso. Do ponto de vista teológico, na Idade Média, foi ensinado que o deficiente era alguém que não tinha alma e precisava ser batizado para obtê-la. Isso é também um aspecto.

Outros exemplos negativos na história são as guerras. Mas hoje nós temos acesso a uma gama de acontecimentos da história da humanidade que nos confrontam e nos indagam se é isso que a gente quer continuar sendo como humanos. É aí que entra a questão da pobreza, é aí que entra a questão da fome, é aí que entra a questão da miséria.

“A pobreza é um atentado contra a humanidade, assim como o desenvolvimento insustentável é um homicídio contra a biodiversidade.” D. Delambre

Se a questão do aquecimento global é uma questão que diz respeito à preservação – o que eu poluo aqui no Brasil interfere lá na Europa e o que eu poluo lá na Ásia, ele interfere aqui no Brasil. É aí que eu me situo dentro da sustentabilidade. É a sustentabilidade na complexidade. Se a mulher que varre a casa, não conseguir entender o que estamos discutindo e seu lugar no mundo, não há sustentabilidade integral. Todos os pesquisadores admitem, de uma forma geral, que há uma aceleração da extinção da biodiversidade e nós temos que cuidar! Muitas pessoas morrem em função da forma de convivência que nós estabelecemos para o mundo. É quase uma anomalia a gente discutir a questão aquecimento global e da sustentabilidade sem inserir a questão da fome e da miséria, a matemática não fecha. Sentimos a fome todos os dias: recentemente na Etiópia, no Haiti, nos países da África, nas regiões mais pobres da América Latina; tem a crise do desenvolvimento  e crescimento na China – chegando a primeira economia, mas com o IDH (índice de desenvolvimento humano) comparado a favela do Alemão – que desenvolvimento é esse?

FLÁVIA: E você acredita que há esperança?

DELLAMBRE: “Se a história passar mim, pego carona e vou de carrinho de rolimã.” D. Delambre

Um dia, uma pessoa que amo muito me chamou de poeta da esperança. Aquilo me despertou atenção. Minha esperança não é simplesmente a etimologia da palavra “utopia”, isto é, na semântica de “utópico”. A esperança de que falo também não é uma espera passiva. Ela não também não é um apanágio de promessas que vem como auto-ajuda em dias nublados. O conceito de esperança que desenvolvo e aprofundo pode até tocar em tudo o que foi dito antes. Mas ele se propõe a degustar a vida como nascimentos profundos de virtudes que se quer conhecemos em nós e na realidade pluricolor que nos cerca. No ofício cotidiano de varrer uma casa, é possível des-cobri-la. Está em nós e fora de nós; está no passado, no presente e no futuro. Une a totalidade da vida, mas dificilmente pode ser ativada se a dor não for estabelecida como passagem; como limite e fronteira pra existir. “A Nossa Carência é tão Absoluta que se compara à mina de San José, Chile.” D. Delambre Tudo isso está em dimensões tanto locais como globais; são faces de um mesmo rosto; ou expressões fragmentadas de um único prazer que reverbera, como fogo, luz, energia e vida, nas partes do corpo de uma mesma mulher.  Ou são como estrofes que compõem os versos do poema que escraviza para libertar a Poesia de sua transcendental-idade.

“A Vida é uma Catástrofe de Esperança, Felicidade.” D. Delambre

Neste sentido, o futuro, só quem viver, verá. Eu costumo usar a metáfora do amor. Nós não temos a resposta pronta. É sempre risco arriscado de padecimento. E aí gente cai de novo na teologia: uma das dimensões da teologia é você aprender a caminhar na vida sem ter todas as respostas. “A religião que acredita ter todas as respostas ensina seus adeptos a trocar a fé arriscada por muletas e bengalas”. D. Delambre É necessário aceitar essa fragilidade humana que nos tangencia, mas diante da fragilidade, podemos brincar com ela, fazer poemas, ser tomado pela Poesia; fazer música, sermos solidários, chorarmos juntos; choro e ombro são também respostas para as tragédias que nos marcaram sempre. As capitais perderam muito dessa convivência e comunitária interiorana e favelada. “Nessa noite regada de choros, eu posso dormir frágil e acordar forte em minha carência”, porque a fragilidade se tornou minha aliada.

São muitos desafios que nós temos, como humanidade, para ser superados. Contudo, vivemos um momento central na história humana. Algo dessa Esperança que me alimenta hoje é parte desse poder que há bilhões de anos foi combustão para que a Vida imperasse sobre a morte, por isso estamos aqui. É como uma criança que deseja empinar uma ‘raia’, mas precisa da ajuda dos coleguinhas pra fazer a rabiola. Cada um dá a sua contribuição, mas sem a força oculta do vento, todo trabalho conjunto é vão. A esperança é esse vento que sustenta a pipa. Ele não pode ser visto, mas pode ser sentido. Às vezes, ele vem com tanta força que arrebenta a linha e a pipa voa na imensidão do céu. “Essa Esperança não se controla; com fé, credita, caminha, sofre e ama.”

FLÁVIA: Eu queria que você falasse da sua teoria centro gravitacional.

DELLAMBRE: Na verdade, acho muito ousadia propor a construção de uma teoria sobre a qual há algum tempo venho refletindo. É preciso afirmar antes que todo olhar é um olhar a partir de um ponto de vista. Ou seja, todo olhar, é uma “Olheitura”. Como toda leitura que não seja plágio, é uma releitura. Neste sentido, toda experiência é uma experiência a partir da minha própria experiência. É o risco de escapar da patologia mimético-social que forma para iguais, e como ninguém jamais conseguirá ser igual, temos seres alijados, decapitados de suas peculiaridades, que foram forjadas dentro da dor da sobrevivência humana, desde o nascimento até a adaptação ao meio. Essa teoria do “Centro Gravitacional da Existência Humana” é uma proposta que está ainda em construção. O título não tem muita ligação com o termo técnico-científico, é mais uma questão semântica. Os termos precisam ser interpretados no contexto do prédio ou da casa de lixa erguidos numa favela – metáfora, óbvio. Em cada momento, cada viagem, cada pergunta, e um tijolo é colocado na construção. Não dá pra per-correr no amor, é imprescindível degustá-lo.

Eu apresentei um pequeno esboço dessa proposta numa semana de extensão e pesquisa aqui no Rio de Janeiro, na FABAT, ano passado. Ela também está na base do projeto “Gol para o Planeta”. O fundamento dela nasce de uma retomada da minha própria história lúdica da infância, da formação acadêmica e da minha vivência na comunidade do Mato Alto. Ela nasce também do meu contato paradigmático – que me deixou marcas indeléveis – com o contexto europeu, especificamente, a Alemanha e no drama da alma e da resiliência humana. Existem algumas diferenças bem interessantes entre a Alemanha e o Brasil, mas na alma gravitacional, há muitas coincidências. Nessa teoria temos uma discussão intensa sobre as potencialidades humanas, mas na sua total e integral coexistência com tudo, tudo que existe e já existiu no planeta. De alguma forma, toda a história bifurca em nós com suas virtudes e seus fracassos. Por outro lado, essa teoria percebe que há alguns séculos gestamos uma formatação teórica e prática na sociedade, que não favorece o desenvolvimento de habilidades peculiares, interiores e conectivas, processuais, que são oriundas da totalidade da vida de cada pessoa e da totalidade de sentimentos carregados de energias positivas, negativas, contraditórias e paradoxais que ecoam como um único canto que harmoniza de Sentido e significados a história musical dos ritmos do Universo e dos batidas que pulsam nosso coração, possibilitando que o sangue per-corra por todo o nosso corpo de vida. Cada pessoa é peculiar-conectiva para si e para além de si mesmo; cada ser e cada pessoa é o centro gravitacional do Universo, quando encontra o Sentido musical e poético de si mesmo no Todo. Tudo tem um Sentido, mas o significado é dado por cada um de nós. Viver é ressignificar constantemente e provocar sentimentos integrativos e/ou destrutivos.

FLÁVIA: Você chamaria isso de dom?

DELLAMBRE: Eu não chamaria de dom, porque senão poderíamos correr o risco de dizer que você tem e eu não tenho. É mais abrangente, não é parte da pessoa, mas a pessoa inteira. A “Teoria do Centro Gravitacional da Existência Humana” é um processo de olhar, é uma nova perspectiva da descoberta de quem eu sou. É como se nós definíssemos muitas máximas da vida cedo demais.  Em geral, essas máximas estão formatadas à luz daquilo que as pessoas disseram que nós somos. Depois de um tempo, nos tornamos dogmas de nós mesmos. E depois de anos, nos ajustamos a estes dogmas. E não nos iludamos, esses dogmas são mais fortes que imaginemos. Eles influenciam a estrutura subliminar de toda uma geração. A desconstrução também é dolorosa. Não tenho pretensão de dizer algo novo do que outros já disseram, tenho sim a pretensão de sentir e ouvir uma intuição que é a simbiose da peculiaridade do que sou na diluição energética do Universo.  Quanto mais ouço e des-vendo essa minha peculiaridade-conectiva com todo o passado cósmico e o presente cibernético, transições que quem viveu 40 anos atrás, não experimentou, posso colocar um tijolinho com pintura nova nessa casa comum simbólica da humanidade.

FLÁVIA: O que dá uma perspectiva de não se experimentar, né?

DELLAMBRE: por quê? Por que dentro desse modelo você acaba formando um cérebro que não acredita mais que ele tem condições de vivenciar outro tipo de experiência, de vivenciar outro tipo de realidade, de desenvolver outras habilidades. Somos tendenciados a acomodação sem a ebulição. E aí essa teoria detecta um grave problema: dentro dessa formatação podemos ter uma gama de pessoas desenvolvendo habilidades para as quais elas não têm uma interligação direta ou reflexiva com o centro gravitacional da sua própria existência. Isso porque a conjuntura social, cultural, educacional, familiar, religiosa não nos dão condições de desenvolver tudo aquilo que poderíamos desenvolver. E qual o caminho que a teoria informe propõe?

A primeira coisa é arriscar a se “contemplar” de forma diferente do que todos te olham. Arriscar-se a olhar um pouco diferente do que a sua educação familiar, religiosa e social te formataram. São quedas no olhar. É um pouquinho de desconfiança de que o seu destino já foi traçado. Que vai morrer nessa profissão. Que jamais poderá amar novamente, etc. Atenção! Essas questões periféricas são apenas caminhos para alcançar a dimensão profunda de nossa própria existência peculiar e conectiva. Não existe resposta pronta, mas toca, com os anos, na estrutura ou centro fundamental e fundacional da própria vida no Universo. Existem gravitações dentro de você que estão conectadas com outras gravitações que são subjetivas, e que você só pode perceber isso se houver abertura para um nível de sensibilidade que também não é muito explorado no nosso processo de educação e formação.

Quando fiz a apresentação resumida dessa proposta, fizemos um pequeno fluxograma de forma que cada pessoa pudesse começar a se contemplar e anotar possibilidades e sonhos adormecidos. Define-se um possível fluxograma do próprio centro gravitacional e abaixo dele colocam-se outros eixos gravitacionais. Discorri um pouquinho sobre minha própria história e mostrei como a vida se torna mais aberta, pois a teoria traz algo interessante que destoa da formatação atual: o valor da minha história não está no início, mas no final. Final aqui é, na verdade, o próprio começo de possibilidades. Apenas no final da vida se pode dizer quando realmente foi o início, o meio e o fim. Tempos são vistos em sua radicalidade relativa e tudo passa a depender muito de ressignificações, chances construídas, esperanças perseguidas, oportunidades oferecidas, isto é, a própria vida. Construí um exemplo básico da configuração do meu centro gravitacional e as possibilidades intuitivas que gravitam ao redor dele. O que é centro hoje pode ser periferia amanhã. E o que nunca existia de forma visível, pode brotar nos encontros da centro da existência humana com a existência cósmica. É uma abertura à provisoriedade dos dias e à fragilidade forte de toda vida que traz a VIDA ao Universo.

E qual seria o grande ganho interessante dessa proposta teórica?

É que a gente não vê a vida do começo pro final; a gente vê a vida do final para o começo, do meio pro começo. Existem situações das fases iniciais que são impostas socialmente e que nós nos adequamos dentro de um modelo social para cumprir funções, expectativas familiares e outras. Nessa teoria, a vida pode começar de trás pra frente ou da frente pra trás. Tudo vai depender das descobertas da abertura para a própria Vida que vou assumindo dia a dia à luz do novo que é a própria existência. Há uma grande ênfase na liberdade criativa: mãe pode não ser quem me gerou, mas quem de fato de me deu a vida; irmão pode não ser aquele que tem os mesmos traços genéticos, mas aquele que me auxiliou à Vida; Família pode não ser aquela em que nasci, mas aqueles que me acolhem e me oferecem segurança simbólica de humanidade. Várias outras coisas podem ser colocadas aqui. A lista é extensa e toca nos pólos de desenvolvimento dos tempos e das fases da vida. Percebamos que não é uma anulação da primeira etapa da vida, mas sim um diálogo com ela para o vôo da pipa, impulsionado pelo vento de Esperança, que se mistura às leis que sustentam, movimentam e dão Sentido de Totalidade ao Universo.

FLÁVIA: E essa observação é Constante.

DELLAMBRE: Constante, constante, constante. Não é só a observação-contemplação que eu faço de mim. É  o que os outros percebem também sobre mim. (o Poeta da Esperança) (ou Gentileza gera Gentileza). É como se, nessa teoria, a gente dissesse que a vida é aberta. E o mais belo dessa experiência é propor uma risco teórico que dialogue com intuições que a gente tem a muito tempo e todo mundo dizia que não. Flávia, se a gente for estudar um pouco a história das pessoas que deram grandes contribuições com avanços para a história da humanidade, essas pessoas tiveram que, em algum momento, romper com uma armadura social. O centro gravitacional é uma integração do ser humano com todas as dimensões da existência. Nada, absolutamente nada, pode ficar de fora. Se desaprendemos a contemplar, desenvolvamos a contemplação. Se beijamos sem apetecer a alma, que desenvolvamos. Se passamos sem sentir que vivemos, que vivamos sentindo sentidos. Se per-corremos e acreditamos que saboreamos, que mudemos, pois a vida é do final-meio para o começo.  Uma dimensão subjetiva costura e integra também a realidade. E essa dimensão não anula a vida, transpassa a vida; não nos retira da realidade, nos joga de novo na realidade; não propõe um mundo que não seja esse, mas que discute esse mundo que a gente está vivendo; que não encontra um refúgio num lugar supostamente perfeito, e por isso que admite o caos como possibilidade da ordem. Admite radicalmente a periculosidade de simplesmente estar vivo. “Todo ser humano tem uma forte tendência à desintegração.” “Todo ser humano tem uma forte tendência à Esperança.”

FLÁVIA: Hoje é dia de Zumbi dos Palmares – símbolo de resistência da cultura negra. Palmares era um quilombo auto-sustentável. Quando foi que você se deu conta que era negro? Nesse sentido, a gente pode falar de preconceito e liberdade?

DELLAMBRE: É engraçado. Sempre me perguntam sobre isso, mas eu me descobri como preto meio tarde. Não existia esse nível de percepção na minha infância. As melhores descobertas existenciais, na minha perspectiva, elas passam de alguma forma por esse encontro radical com o negativo. Quando era pequeno e brincava com outras crianças, nós éramos seres humanos e iguais. As dores e as carências nos uniam muito mais do que as diferenças nos separavam. A questão da cor da pele não era barreira. Vivíamos “junto e misturado”, brancos e negros e outros.

Eu tenho um conto, que é a retomada da minha história. Nele crianças brincam e queriam descobrir de onde vinha a nascente do rio. Elas andam pela floresta e se percebiam como parte integrante da natureza, ela não era estranha, mas apenas outra. Esse conto termina com a crise existencial das crianças, pois quanto mais elas subiam para descobrir a nascente do rio, mais elas descobriam que o rio lá embaixo estava sujo. E quando elas chegaram à nascente, encontraram um mistério: como um filete de água se transformava num rio imenso que alimentava toda cidade. Isso tipifica minha descoberta como negro. A fase adulta, o pensamento crítico, a crise da inocência e a perda da ingenuidade; o encontro da nascente do rio pode ser simbolizado com estes exemplos: ser confundido com o funcionário do laboratório de informática algumas vezes numa faculdade particular rica no Rio de Janeiro; ao visitar uma colega de turma do mestrado no Leme, ao lado de Copacabana, ser confundido com o entregador de encomendas; ser confundido com funcionário hidráulico na Tijuca, ao visitar uma querida família; assistir um prédio ser quase cercado pela polícia em Santa Tereza porque um negro muito bem vestido e aparentado adentrou o apartamento – deve ser um traficante; e por último, ser questionado, por alguns alunos na faculdade de Tübingen, Alemanha, se eu cursava medicina.  Seria quase impossível não experimentar, existencialmente, que a seleção em nosso país, além da classe social, passa pela cor mais escura ou mais clara da pele.  Eu tenho uma frase que é: “Entrar pra universidade é entrar nos dramas da vida”. E foi lá que eu comecei a perceber toda a discriminação contra os negros, que a gente tem uma mídia que privilegia um estereótipo social, etc. Do ponto de vista estrutural, temos ainda muito que construir aqui no Brasil. Quando vivemos em outros países, enxergamos aspectos subliminares de nossa terra.

Mas toda essa questão não pode vir com o ódio. O ódio é doença. Nós somos o último país da América latina a acabar com a escravidão em 1888. Nessa mesma data, estava sendo criada a primeira universidade destinada apenas para negros nos Estados Unidos. E mais tarde tivemos uma terrível ditadura. Se somarmos o período de escravidão com o da ditadura, todos nós temos muito pouco tempo de uso mais consciente da liberdade. Alguns ranços ainda persistem. Nesse sentido, para um país de quinhentos anos, é muito pouco. É por isso que acredito que nós brasileiros vivemos um momento histórico. É por isso acredito num cinema independente, onde todos podem produzir seus filmes, colocando suas próprias histórias nas telas, nas redes sociais, no you tube. É por isso que acredito na arte como espaço da contracultura. É por isso que acredito nas expressões musicais distribuídas entre amigos, que se tornam os grandes marqueteiros. É por isso que acredito em projetos sociais, como o “Gol para o Planeta”, que ousam dar voz aos diferentes. No dia em que a Esperança e o sonho, que considera a dor e a desintegração, não forem mais condições pra viver, acho que a Poesia terá nos abandonado às mínguas. E certamente, a vida será só nostalgia. Então, é por isso que acredito na proposta da “Teoria do Centro Gravitacional da Existência Humana”, pois aqui a memória é escolha, pois não basta escarafunchar os porões da história, muito melhor é ressignificá-lo, e se possível, ao nosso favor, colocando-o em sua intrínseca relação com as gravitações positivas de nossa interior e conectiva com a existencial-idade. Querer saber que idade temos?, nesse aspecto em que estamos dialogando, é o mesmo que perguntar – numa versão revista, atualizada e googleniana – de onde viemos, porque estamos aqui e para onde estamos indo.

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