TROCANDO IDEIA COM FLÁVIA MUNIZ CIRILO

 

método flamps

Dizem que pra gente se encontrar leva tempo. Deve ser por isso que esta autoentrevista é tão tardia ou pelo fato de Flávia precisar contar mil coisas do próprio jeito. Ela costuma dizer que tem dois nascimentos, é bastante curiosa, criar a faz pulsante e sonha em ver Bondade às seis da tarde degustando um café aromado no coração dos homens. Ama o realismo fantástico. Flávia Muniz Cirilo é cantautora carioca. Estudou bacharelado em música popular brasileira, na Unirio. Descalços sobre a Terra é o primeiro álbum “solo” (2012). O cd saiu pelo selo espanhol Elefant Records, teve uma edição japonesa e está tendo ótima repercussão mundial. Como vocalista da Luisa mandou um beijo tem três álbuns lançados e participação em diversas coletâneas na Europa e nas Américas. Em 2010 o grupo ganhou o prêmio Catavento. Tem algumas publicações: Quero ver verdejar (2011),Vilarejo-pergaminho do fogo (2010) e Bárbara e a baleia (2010),  pela editora Multifoco, Joana e Altamira (2012 – Cakibooks) e Verde Maduro (2012 – Editora Oito e meio). Costuma dizer que seu trabalho é inspirado na “Carta da Terra” e a partir dos seus livros criou uma espécie de workshop que mistura música, conversa e histórias  para o público infanto-juvenil.

FLÁVIA: Fale um pouco sobre Flávia Muniz Cirilo.

FLÁVIA: Falar sobre Flávia Muniz Cirilo… Flávia Muniz Cirilo: esse nome aí que me batiza… Por sorte, uma das coisas boas que meu pai fez, foi na hora de me registrar no cartório trocar meu nome, que seria Aline, e ele colocou Flávia. E eu agradeço muito porque eu não consigo me imaginar com outro nome. Flávia combina muito comigo até porque parece que Flávia vem de favo. No livro dos nomes está escrito: de cabelos loiros. Então eu me considero bastante Flávia mesmo. E aí tem esse Muniz aí que vem do meu avô Pedro e a tem a outra parte que vem do meu outro avô, Antônio Cirilo. Mas eu acho que esse nome é inventado… É de Portugal, mas é inventado. Flávia Muniz Cirilo é essa pessoa aí. Definir? Não gosto de definição.. Parece que coloca fim e eu considero que tenho um infinito dentro de mim… A busca é incessante porque a gente não para de se questionar, de se perguntar: onde é que é? Pra onde vai? Quem é que vem? Quem é que vai? Vai aonde? Cria o quê? Fala o quê? Diz pra quem? Flávia… Essa pessoa aqui. Tem gente que chama de Flamphs, tem gente que chama de Flavinha… Muita gente me chama de Flavinha até em lugar que eu nunca fui, que eu não conheço, nunca me viu… chamam de Flávia… Chamam de Flá, Flews, Flowers… Chamam Flavoca, Flavitcha…

FLÁVIA: Como foi que começou?

FLÁVIA: Ah, como tudo começou?Começou assim: eu queria ser atriz desde pequena e brincava de teatro lá em casa, na minha casa na Usina, mas ao mesmo tempo eu era bem tímida, fiz teatro no colégio… Depois eu fui estudar na Villa Lobos, fiz canto popular com a Anabel Albernaz, foi minha professora, e aí logo que entrei eu me classifiquei com uma música, chama o fado – e nunca fui de ouvir fado, apesar de ser de família portuguesa – mas compus um fado. Então me inscrevi no primeiro mês que eu entrei pra escola Villa Lobos (no festival da canção) e comecei a compor, comecei a compor, fui tendo um feed back… As pessoas achavam que as minhas músicas eram legais e aí foi assim…

FLÁVIA: Mas e a 1999?

FLÁVIA: A 1999 era um sonho, era uma utopia. Em 1993 começou os primórdios do que seria a 1999. A gente ensaiava em Caxias, Duque de Caxias, na Baixada Flumiense e se tivesse youtube naquela época a gente teria ficado bem conhecido, porque onde a gente tocava, onde a gente chegava, todo mundo gostava. A gente tocou muito na Cantareira, na Lapa, tocou em diversos lugares. Depois a gente foi ensaiar lá no Hanoi, no estúdio do Arnaldo Brandão e tinha um clássico que todo mundo adorava: “Galho seco de madeira quebra a beira de rio, quebra a beira de rio, Galho seco de madeira quebra a beira de rio, cachoeiro, cachoeira, córrego o último caminho da cachoeira… (Alexandre Chagas – 1999)

FLÁVIA: E depois?

FLÁVIA: E por coincidência ou não 2002 foi o ano que além de eu estar estudando flauta com o Marcelo Bernardes, eu também conheci o Santo Daime e foi muito especial, porque através das palavras e dos hinos do Padrinho Alfredo eu fui compreender o que é a Nova Era, fui compreendendo dentro do meu coração. Começou a ser apresentada pra mim, de certa forma, a minha missão musical. Eu ainda não sabia, né? Mas ela estava ali, já. Porque a nova era as pessoas acham que é um tempo que vai chegar, quando é que é? E a Nova Era é um nível de consciência, ela não vai chegar, ela já é. A gente tem que passar a adotar esse nível de consciência pra gente alcançar um novo nível de relação humana, de relação humana com a natureza, de relação humana com os animais: todas as formas de vida. E depois em 2005 eu comecei a estudar MPB, na UNIRIO, e no primeiro dia de aula eu conheci o Dimitri BR que foi me apresentar um entendimento do que é ser cancionista. Que eu achava que pra ser músico você tinha que ser virtuose, tocar vários instrumentos. E o cancionista vai apresentando da sua maneira muito particular a sua relação com música. E todas essas experiências são ramificações que formam todo o meu aprendizado musical, todo o meu aprendizado humano. Então estar chegando até aqui, é… Ah! Eu estou bastante satisfeita com a forma que as minhas canções estão se apresentando pra mim. É isso…

Outra coisa importante que aconteceu quando eu entrei pro Daime – eu já conhecia o Rodrigo Sebastian de vista, a gente já tinha tocado junto num evento lá no Néctar, em Vargem Grande, que tocou a 1999 e a Acorda Bamba – só que a gente foi se conhecer pessoalmente no Daime e aí foi uma parceria bem irmã, porque ele foi o primeiro a decodificar as minhas músicas, a gente fez uma primeira gravação caseira delas e foi ali que começou o que hoje é Flávia Muniz e o Olho Mágico, pelo menos, ali,  era a sementinha.

E em 2004 foi um divisor de águas no sentido do canto pra mim, porque eu fui fazer no SESC um curso com a Suely Mesquita – Voz Invento. E foi muito especial porque a Suely Mesquita foi quem me ensinou, eu compreendi como é que se canta. Deu um estalo e foi ali que eu entendi o que é o canto. Depois eu fiz aulas particulares com ela. É uma ótima compositora e é uma pessoa que eu não posso deixar de colocar no meu currículo musical.

FLÁVIA: Quero saber mais sobre o Descalços sobre a Terra.

FLÁVIA: O Descalços sobre a Terra foi uma pesquisa que eu comecei em 2003, uma pesquisa de decifrar a formação cultural do Brasil trazendo elementos da cultura africana, indígena e europeia. Foi uma pesquisa que eu fui fazendo ao longo da faculdade com todas as experiência que eu vinha tendo, mas só que chegou uma hora na UNIRIO que aquilo tudo não me satisfazia bem. Então eu fui buscar fora, fazer outros cursos – de filosofia, de jornalismo – pra ver se eu compreendia aquilo tudo melhor. Então dentro desses cursos que eu fiz com o Márcio Tavares do Amaral e com o Evandro Ouriques, trouxe uma nova dimensão dentro do meu trabalho que foi conseguir aproximar tudo aquilo que eu estava observando no mundo.Porque foram cursos que aproximaram ação da fala e isso pro meu discurso artístico foi fundamental.

FLÁVIA:  Tem um método de compor? Como é?

FLÁVIA: Ah! Muito do que eu estou pensando, do que eu estou sentindo, quando eu estou apaixonada também. Tudo isso me motiva muito a criar. A criação ela contagiante: quando você começa a criar, gosta do que criou, você quer mostrar pra alguém, você quer… Nossa! Que “quié” isso? Por exemplo, uma música do “Descalços sobre a Terra”, que é o “Raízes brasileiras” – uma balada que depois vira um jongo – eu fiz essa música assim que eu fechei o livro “O Mistério do samba”, do Hermano Vianna. Na hora eu achei que consegui traduzir pra uma forma musical todo aquele conteúdo acadêmico muito bem escrito, pra ali, pra música, fiquei tocando, tocando, tocando sem parar e eu achei na hora: Gente! Essa música é a cara da Maria Bethânia e eu só conseguia imaginar a Maria Bethânia gravando essa música. Esse é um dos exemplos. E também é muito da brincadeira: eu pego o violão, estou fazendo uma harmonia, aí vem uma melodia, e dentro dessa melodia vem um ritmo e vou fazendo, vou cantando repetidas vezes até que vem as palavras e as palavras se encaixam… Pelo menos é assim que eu componho.

FLÁVIA: E a vida? Tem explicação?

FLÁVIA: A vida é o presente esplendoroso, consecutivo que se alimenta da nossa gratidão diária. Eu adoro seguir o fluxo também, mas é tão bom quando a gente consegue descobrir a verdadeira expressão da nossa alma, onde é que a gente vai funcionar melhor, onde é que a gente se encaixa e eu acho que isso é mesmo em harmonia com a natureza. Porque o tempo passa, o tempo passa,  o mundo se industrializa, acontece um monte de coisa, mas a natureza permanece, mesmo porque ela é mais forte que o homem. Então…

FLÁVIA: Diz alguma coisa sobre o veganismo, Flávia.

FLÁVIA: Ah… Eu acho mesmo que o veganismo é forma mais correta da gente viver em harmonia com todas as formas de vida do planeta. É um convite: vai quem quer, quem lê, quem pesquisa e vê que é verdade, não é papo não, porque a indústria é muito fascinadora, os produtos que eles colocam para as pessoas comprarem aquilo novamente, vício do paladar. Fora que quando a gente fala de veganismo, a gente está falando de uma outra vida, a gente está se alimentando de uma outra vida. A gente tem um gatinho, um cachorrinho que a gente gosta tanto, mas por que a gente come os outros animais? É meio incoerente. Então tem gente que me acha meio radical de não estar comendo carne, mas eu não acho não, sabe? Radical é você não pensar bem o que está sendo imposto pra gente. Eu acho que isso é que é ser radical.

FLÁVIA: A Carta da Terra é pontual no trabalho de Flávia Muniz Cirilo. Que amor é esse?

FLÁVIA: A Carta da Terra? Ela serve como fonte de inspiração pras coisas que estou fazendo: ela aparece nos meus livros, nos meus discos, aparece nos vídeos… A Carta da Terra combina muito comigo. Deve ser porque eu sou regida por um signo de elemento terra, meu ascendente é em terra, minha lua em terra, então, acho que não tem muito como fugir disso não. E além disso, a Carta da Terra são os parâmetros que quando eu olho pra ela e trago isso pra dentro da minha expressão, é o que eu acho que quero deixar como legado da minha alma pro mundo.

FLÁVIA: Algum novo projeto?

FLÁVIA: A gente teve o projeto aprovado, pelo MinC, pela Lei Ruanet. O espetáculo do nosso DVD, o espetáculo Descalços sobre a Terra, que é o primeiro cd. A Lei Ruanet é uma lei de cultura onde o governo abre mão de receber os impostos e a empresa pode investir em cultura: tanto empresa, quanto pessoa física. E a gente agora tá na fase de buscar patrocínio. Se você é uma empresa, então você pode investir na gente. Esse projeto vai distribuir gratuitamente uma parte dos DVD nas escolas e nas bibliotecas. Então espero que vocês gostem. Entrem lá no site: WWW.flaviamuniz.net e saibam mais sobre tudo que está acontecendo de bom com esses trabalho musical.

FLÁVIA: O que vem por aí?

FLÁVIA: Então pro novo disco nós já temos 9 músicas escritas na pauta, estamos ensaiando, em breve vamos começar a produzir o próximo cd, vamos fazer um crowdfunding – financiamento coletivo, onde cada um colabora com o que pode e tem uma recompensa em troca. Conto com a colaboração dos amigos pra gente poder mostrar o quanto antes o novo álbum “Eu sou o que a terra quer ver”.

FLÁVIA: Flávia, e Deus?

FLÁVIA: Deus… Deus é…Deus? Deus… Não dá pra falar de Deus, né? A gente sente Deus dentro da gente… Deus é… Quando a gente inspira, expira…E… Ah, eu não sei falar sobre Deus não…Porque é muito grande… Se Deus coubesse na palma da mão…Imagine só…

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2 pensamentos sobre “TROCANDO IDEIA COM FLÁVIA MUNIZ CIRILO

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